A saída é sair do comodismo

A saída é simples: sair do comodismo

Por Josivandro Avelar
Imagens Paulo Rafael Viana

Todo início de ano é a mesma coisa: a passagem de ônibus aumenta em João Pessoa e na região metropolitana. No último aumento aplicado, a passagem de ônibus municipal passou de R$ 3,55 para R$ 3,95 – com desconto de quinze centavos para quem usar o cartão eletrônico. Ok, a passagem aumentou e… Cadê as melhorias?

Nenhum ônibus zero quilômetro foi adquirido neste ano na Grande João Pessoa. As trocas de frota tem sido feitas só com ônibus usados de outras cidades, alguns próximos de estourar a idade média. A alegação das empresas para justificar a falta de investimentos é sempre a mesma: estão com dificuldade para fechar as contas diante da crise, por causa da queda do número de passageiros.

E porque o número de passageiros cai? Porque a passagem está cara e quando acontece um aumento, as melhorias nunca aparecem. O passageiro não quer pagar caro por um serviço que não corresponde a aquilo que ele espera. Se não tem melhoria, a fuga é certa. As empresas esperam efetividade na regulamentação do transporte por aplicativo ou do combate ao clandestino, mas não correspondem fazendo o possível para reconquistar o passageiro. Se continua do jeito que está, ele tende a não voltar.

O resultado desse comodismo é visível: a capital paraibana, antes um exemplo de renovação de frota, está sendo passada para trás por várias cidades em termos de renovação e melhorias. Fortaleza, Teresina e São Luís, por exemplo, já tem um grande número de ônibus com ar condicionado e renovações constantes. E sofrem da mesma concorrência. Qual é o problema daqui?

Não adianta nenhuma ação contra a concorrência se as empresas oferecerem as mesmas condições para que o passageiro volte a andar de ônibus como antes. Em qualquer segmento de mercado é assim: quem se mexe movimenta e fideliza, quem fica acomodado vê o trem passar. É assim com um meio, mesmo ele sendo concedido, como o transporte coletivo. É só ver como outras cidades lidam com isso.

Então, já viu os ônibus verde marca-texto de São Luís? Os verde abacate de Teresina? Ou os ônibus de Fortaleza? Até mesmo os de Recife? Uber e 99 tem em todo lugar. Nessas cidades também. E por mais que as empresas dessas cidades sintam, elas estão se mexendo. Alternativo em carro velho até deve ter lá – os aplicativos não admitem carros acima de sete anos de fabricação. Mas será que o passageiro deixaria de andar num ônibus climatizado para andar num carro de passeio 1998 sem vidros?

O passageiro se sente desconfortável, quer o mínimo de conforto e segurança e quer benefícios proporcionais ao que ele paga de passagem. Aliás, dá um Google e pesquise os preços das passagens dessas cidades que eu mencionei. São todas mais baratas que as de João Pessoa.

Num mercado dinâmico como o de hoje, o passageiro está conectado, mais crítico e mais exigente, e as empresas precisam ficar atentas ao que ele quer e espera, como na questão do ar condicionado, que deveria ser um item obrigatório – e portanto não fora da realidade como as empresas alegam. Hoje em dia nem o carro de passeio mais pé-de-boi do mercado brasileiro sai de fábrica sem ar condicionado.

A saída é simples: sair do comodismo. O passageiro só vai se sentir reconquistado se ele sentir que não vai pegar o mesmo ônibus lotado de todos os dias que as vezes nem chega na hora, depois de um dia cansativo de trabalho. Passageiro é cliente, e o cliente tem sempre razão.

4 Replies to “A saída é sair do comodismo”

  1. Marcus disse:

    Cara, melhor matéria do ano. Vocês conseguiram descrever exatamente a indignação de nós, pessoenses. Existe, com toda certeza, um arrumadinho dentro dessa história toda, de falta de pagamento. Não existe a possibilidade de um serviço que é pago A VISTA n ser sustentável, diante do preço da passagem. E outra coisa, a demanda diminuiu, mas os ônibus também. Proporcionalidade ai. Pena que n temos força pra ir às ruas lutar por um transporte de qualidade.

  2. Agnaldo disse:

    Muitos municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, tanto as municipais, que são licitadas,e as intermunicipais que aínda não foram licitadas boa parte da frota é com ônibus de ar condicionado,mais do que justo, pois as passagens daqui são bem caras o que abriu os olhos dos empresários,por causa dos aplicativos Uber e 99, portanto os empresários do Estado da Paraíba tem que fazer o mesmo, senão vai fechar empresa de ônibus um atrás da outra, como já fechou no município do Rio de Janeiro,14, além é claro da falta de manutenção de muitas delas, Itaboraí e Rio Bonito, são exemplos disso, não tem transporte público licitado,mas as empresas adquiriram ônibus com ar condicionado para evitar a queda do número de passageiros, façam o mesmo os empresários daí

  3. Flávio disse:

    Parabéns pelo texto, lúcido e bem explicado. É preciso se adequar, reinventar, para bater de frente com a concorrência. Enquanto a postura não mudar, os resultados também não mudarão.

  4. Ronaldo Fernandes disse:

    Em São Luís o valor da passagem é de R$ 3,40 e todo ônibus novo inserido no sistema urbano tem que ser com ar condicionado.

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