Formato atual de transporte coletivo poderá falir, diz professor

Professor da UFPB afirmou que o transporte coletivo da Capital registra queda de 38% nos passageiros e critica erros que levaram ao problema

Por Portal Correio
Imagens Paulo Rafael Viana

Ônibus lotados, atraso nas viagens e insegurança. Essas são apenas algumas das reclamações dos usuários do transporte coletivo de João Pessoa, que estão buscando cada vez mais meios alternativos de se locomover na Capital. Por conta disso, empresas e sindicato já chegaram a falar em falência do modelo atual e, em março, pediram providências aos poderes públicos. A possível falência também é opinião de um especialista em trânsito consultado pelo Portal Correio.

Conforme o professor Nilton Pereira, do curso de Engenharia Civil da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o sistema de transporte público de João Pessoa vem passando pelos mesmos problemas de outras capitais, que é a queda no número de passageiros.

Porém, essa queda na Capital foi mais acentuada, atingindo um índice maior nos últimos cinco anos. “Embora a população da cidade tenha aumentado, o número de passageiros caiu 38,2% e essa queda se acentuou mais ainda nos últimos cinco anos. No ritmo que está indo, o sistema não corre o risco de falir, ele vai falir”, opinou o professor.

Apontados pelo Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Trânsito no Estado da Paraíba e pelas empresas de transporte em geral como principais responsáveis por essa queda de passageiros, os motoristas de transporte privado por aplicativo não são os grandes vilões, de acordo com o professor.

Para ele, de fato, o transporte por aplicativo causou um impacto ao modelo de transporte coletivo por ônibus, mas é necessário que as empresas se reinventem e busquem alternativas para competição.

“Não só pelo preço, mas pela flexibilidade que o transporte por aplicativo oferece eles afetaram o sistema. Mas, essa é uma tendência no mundo inteiro. Não dá para competir com essa modalidade mantendo um sistema de transporte público rígido, que não procura acompanhar as novas tendências. Sempre vai ter espaço para o transporte público coletivo, desde que ele se reinvente, e não tente competir com os aplicativos. É preciso tirar lições desse fenômeno, entender as preferências do usuário e buscar alternativas para melhorar a qualidade do serviço e atrair o usuário”, afirmou Nilton Andrade.

Opções erradas de ambos os lados

Tanto empresas como a Prefeitura de João Pessoa erraram e contribuem para os problemas que afetam o transporte coletivo. Segundo o professor, um dos erros das empresas foi a forma de como os cobradores foram retirados dos ônibus.

O fato, desde que foi iniciado, deixou as viagens cada vez mais lentas, já que os motoristas assumiram a função de cobradores quando a passagem é paga em dinheiro e isso afetou o tempo de parada dos veículos nos pontos de embarque.

“A forma como foi feita a retirada dos cobradores em João Pessoa foi inversa à lógica. Não houve uma campanha ou estímulo que incentivasse a migração do dinheiro para o cartão e o resultado foi que a qualidade do serviço caiu muito com isso. Os motoristas não podem dar partida enquanto todos os passageiros não entrarem, o troco atrasa o processo de embarque, o ônibus passa mais tempo nas paradas, principalmente nos terminais, como o da Lagoa”, disse o professor.

Pelo lado da prefeitura, Nilton apontou que a priorização da circulação dos ônibus nas principais vias da Capital, como a Epitácio Pessoa e a Pedro II, com a adoção das faixas exclusivas foram pontos positivos adotados pela administração.

Porém, erros em projetos de mobilidade que, no papel, foram pensados em facilitar a vida dos usuários de ônibus, mas na verdade criou um caos no transporte coletivo. O BRT, que seria a revolução do transporte coletivo de João Pessoa, mudou de nome e até agora não saiu do papel e só existe em promessas.

“Em um passado muito recente, foram implantadas faixas exclusivas nas avenidas Epitácio Pessoa e Pedro II. O benefício que poderia ser obtido com essas medidas foi suplantado pela estação da Lagoa, que representa hoje o maior problema estrutural do sistema de João Pessoa, com longos congestionamentos de ônibus e aumento dos tempos de viagens de quase todas as linhas que passam por lá. Uma intervenção que foi entregue há pouco tempo e que, ao invés de melhorar a qualidade do serviço, piorou o que já não era bom e contribuiu fortemente para a fuga de passageiros para outras formas de deslocamento”, explicou Nilton.

Cada vez menos passageiros

De acordo com dados do Anuário da Associação Nacional das Empresas de Transporte Coletivo (NTU), entre abril de 2018 e abril de 2019 houve uma queda de demanda de 4,3% de passageiros no setor, o que equivale a 12,5 milhões de passageiros a menos nos coletivos urbanos de todo o Brasil.

Ainda conforme o estudo, entre os principais fatores para essa queda de demanda está a falta de infraestrutura para o transporte coletivo, com redes insuficientes de corredores e faixas, é um dos motivos apontados pela entidade para o atual quadro: o ônibus cada vez mais lentos e menos atrativos.

Com relação a João Pessoa, em janeiro, o presidente do Sindicato dos Transportes Urbanos de João Pessoa, Alberto Nascimento, disse que existe queda “acentuada”no número de passageiros que utilizam o transporte público. Em 2018, foram compradas 3,8 milhões de passagens a menos com relação a 2017, uma queda de 6,4%.

Em março, o diretor institucional do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros (Sitrans) em Campina Grande, Anchieta Bernardino, o sistema vem, de forma inquestionável, passando por crise e o motivo principal é o a perda de usuários.

“Perdemos milhões de passageiros, ou seja, falta dinheiro. Se estamos perdendo passageiros, não há como suprir toda a demanda. Estamos passando por crise desde que foi licitado suporte e investimento para um número de passageiros que já não é mais o mesmo,” esclareceu.

Sobre a perda, ele também acredita que aplicativos tenham ligação. “Tudo que é fora do sistema de transportes, tira passageiros, mas é importante dizer que também temos o nosso aplicativo e que ele funciona, talvez seja o mais perfeito de todos no país, já que foi reconhecido por isso,” defendeu o diretor.

O problema tem solução?

Questionado sobre se o ônibus ainda é o modelo mais viável de transporte coletivo na capital, o professor argumentou que sim, porque o custo para a implantação maior do transporte ferroviário, por exemplo, não seria viável pela quantidade de passageiros que ele transportaria.

Uma das soluções apresentadas é a mudança no pensamento das empresas concessionários do transporte coletivo, que precisão entender o papel social do transporte coletivo e investir na modernização do sistema.

“O ônibus ainda é a opção mais viável para João Pessoa, seja pelo custo de implantação e operação, seja pela capacidade. O mais importante é parar de pensar no transporte público como algo que simplesmente leva e traz pessoas de baixo poder aquisitivo. O papel dele na cidade é muito maior do que isso. Dele depende a qualidade de vida de centenas de milhares de pessoas. Se ele é ruim as pessoas vão migrar para o transporte individual como carro e moto. Nenhuma cidade no mundo conseguiu resolver seus problemas de mobilidade urbana investindo ou incentivando o uso de carros e motos, e sim no transporte público, na bicicleta e na caminhada”, concluiu Nilton Andrade.

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