É hora de avançar

Fonte:
Comtranslegal
Texto:  Helcio Raymundo
Foto:
JC Barboza

As
empresas brasileiras de transporte coletivo por ônibus não podem se acomodar.
Ao longo de décadas pressionaram legitimamente os governos por aumentos de
tarifa. Se estes vinham, ótimo. Se não, a degradação dos serviços, em nome de
uma rentabilidade mínima, era, muitas vezes, a saída cogitada como último
recurso.

Parece
que este tempo está terminando. Se de um lado o problema das defasagens entre
custos e tarifas ainda persiste, em maior ou menor grau, de outro lado mudam as
formas de remuneração e de participação no mercado de prestação de serviços
públicos. Paralelamente, cresceu com muita força o transporte clandestino, ou
pirata, que sem a menor cerimônia roubou demanda do transporte regular em nome
do falacioso “mais e melhor transporte”. Ademais, o transporte individual por
bicicletas, motocicletas e automóveis, associado ao baixo nível de desemprego,
aumento de renda e às facilidades da telemática e do teletrabalho, também têm
imposto seus freios à demanda. Pouco mudou, porém, no planejamento das cidades,
a torná-las mais compactas, nas quais trabalho, moradia, lazer e educação gerem
deslocamentos menos irracionais e em menores tempos e distâncias.
 
O
decréscimo das taxas de fertilidade, a drástica redução das ondas migratórias no
país e a melhoria das condições de saúde e de educação estão conduzindo a uma
maior expectativa de vida e maior grau de escolaridade. Consolidam-se direitos
civis, as minorias os exercem e aplicam-se políticas de cotas raciais, de
gênero sexual e sócio-econômicas, objetivando desenvolver a igualdade social. O
crescimento da população do país em futuro próximo entrará em relativa
estagnação, mas haverá proporcionalmente menos jovens, o que, entre outras
coisas, fará crescer as gratuidades no transporte coletivo. Os potenciais
usuários do transporte por ônibus do futuro, entretanto, serão pessoas com
maior renda, mais educadas e mais exigentes. As demandas deverão ser atendidas,
inclusive no que concerne à acessibilidade aos veículos, pontos de parada, postos
de serviço nas rodovias e terminais, sendo que parte dos custos adicionais nem
sempre são cobertos pelas tarifas.
 
Barbas
de molho, portanto, senhores empresários!
 
Seja
qual for o cenário da economia brasileira nos próximos anos, a produtividade e
a eficiência serão as armas fundamentais para enfrentar os problemas
empresariais deste ínicio de século.
 
Num
cenário “neoliberal” ou de ênfase ao resgate social de inclusão e
redistribuição de renda, a competitividade aumentará, seja porque novos concorrentes
disputarão fatias do mercado, seja porque o nível de rentabilidade pode cair.
Por tratar-se de mercado naturalmente oligopolizado, a quantidade de fusões e
incorporações tende também a aumentar. Não será de todo estranho se novos
“players” entrarem neste mercado, fornecendo veículos, tecnologia operacional
ou as duas coisas. Assim, o setor de prestação de serviços de transporte
coletivo por ônibus, como de resto as empresas envolvidas na prestação de
serviços públicos, será fortemente solicitado pelo lado econômico e pelo lado
social.
 
Parece
também inevitável que surjam novas oportunidades nas parcerias com o poder
público e é possível que as empresas ocupadas somente com a sobrevivência, como
consequência de uma propalada crise geral ou particular, não estejam preparadas
para competir nestas novas condições.
 
Os
problemas das empresas de ônibus não se encerrariam se os conflitos nas suas
relações com os governos fossem reduzidos. Não se trata só dos governos
arbitrarem tarifas e regularem o mercado, mas sim de se obter rentabilidade e
continuidade em condições satisfatórias. Os governos, no caso, podem
representar até os menores dos problemas, ainda que os controles tributários
por meio do Sistema Público de Escrituração Digital- SPED e a unificação do
envio de informações pelo empregador em relação aos seus empregados por meio do
eSocial gerem maiores preocupações e custos, ademais do cipoal regulatório, da
burocracia massacrante e dos pacotes de bondades e maldades das Medidas
Provisórias.
 
A
empresa de ônibus não pode ser nem instituição financeira nem organização
filantrópica, mas sim uma organização capitalista sujeita às regras ditadas
pelo mercado e pela legislação, que, mesmo consideradas injustas, só podem ser
alteradas por ações políticas que o poder econômico conquistado, presença e
reputação na comunidade conferem.
 
A
rentabilidade, “stricto
senso
“, é questão técnica que pode ser tratada, de modo geral, pela
redução de despesas e aumento de receitas. Há, todavia, riscos maiores,
internos e externos a considerar, dos quais se destacam: desaceleração da
economia, alterações regulatórias e legais, danos à marca e à reputação,
dificuldades em atrair e reter talentos, dificuldades em inovar, entender e
atender às necessidades e desejos dos clientes, aumentos exagerados dos preços
dos insumos, má gestão do fluxo de caixa e instabilidade política e
institucional.

De
outra parte, dispõe-se de opções seguras para manter o equilíbrio econômico e
financeiro das empresas de ônibus e administrar pelo menos parte dos riscos
citados, mas o importante é aplicar a solução certa para cada situação. E isto
pode ser discutido à luz de outros elementos que não só os imediatos, como, por
exemplo, cobrir a folha de pagamento no final do mês, não deixar de pagar as
faturas do diesel sob a ameaça da interrupção do seu fornecimento ou
“administrar” uma tabela horária ou um itinerário mal ajustados pelo órgão
gestor. Neste sentido o Planejamento Estratégico é ferramenta essencial.
 
A
moderna abordagem administrativa e de gestão exige que se coloquem os problemas
nos seus devidos lugares e que se busquem soluções adequadas no tempo e no
espaço. Exige também que a qualidade da produção dos serviços prestados esteja
efetivamente voltada para os clientes, no caso, passageiros e governos. Ou
seja, qualidade não é um diploma na parede, é uma profissão de fé, é uma
necessidade estratégica.
 
Considerados
os objetivos, o ambiente competitivo, as condições de saúde financeira das
empresas e de estabilidade econômica do país, além do comportamento dos agentes
internos e externos, será possível traçar trajetórias seguras de prosperidade
em condições satisfatórias e até agradáveis para quem administra, opera e se
serve da moderna empresa de ônibus.
 
Não
se trata de enaltecer e aplicar técnicas em moda. Basta observar as mudanças
que o setor já vem experimentando. Esta é a base inicial para entender as
necessidades atuais das empresas de ônibus e para solucionar os prováveis
problemas que vão afetá-las no futuro, ou os que já as estão afetando agora.
Não basta também apenas clamar por ajuda dos governos, mas ajuda muito cerrar
fileiras em torno da boa qualidade das políticas públicas, de mais e melhor
financiamento e investimento, do bom planejamento e da efetiva prioridade do
transporte coletivo nos ambientes urbanos. O transporte público deve ser de
todos e para todos, não de ninguém. O transporte público deve ser, portanto,
universal, republicano e democrático, para pobres, ricos e remediados, ou seja,
rápido, confortável, seguro, regular, confiável e, principalmente, módico.
 
Chegou
o momento de canalizar a energia do setor para tarefas que ajudem a melhorar e
resolver os problemas das empresas de ônibus. Esta missão exige vontade das
associações que congregam as empresas, oferecendo e discutindo políticas, ações
e projetos com os gestores, ademais de talento e competência das próprias
empresas na melhoria das suas condições de desempenho, pela melhor utilização
de instalações, recursos, experiência e ativos intangíveis, como o conhecimento
adquirido, preparando-as para uma era em que se alteram dramática e velozmente
os paradigmas de competitividade. Este trabalho, longe de trazer novos
encargos, pode garantir resultados finais palpáveis e de qualidade.
As
empresas brasileiras de ônibus têm avançado muito, principalmente nas relações
com os poderes concedentes, nas ações de responsabilidade sócio-ambiental, na
capacitação da mão de obra e na incorporação de novas tecnologias, como
bilhetagem eletrônica e monitoramento de frota. Mas é preciso avançar muito
mais. Por outro lado, nas circunstâncias atuais, a acomodação poderá ser fatal.

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