O cobrador de ônibus e o desafio do crescimento econômico

Fonte: Blog do Dr. Money
Fotos: Divulgação

Semana
passada, estava eu a bordo de um dos mais privilegiados locais de observação da
realidade brasileira: um ônibus urbano. Entre um chacoalhar e uma freada
brusca, é possível, em uma viagem, compreender a alma do povo tanto quanto
lendo Gilberto Freire ou Sergio Buarque de Holanda.

Como
dizia, estava eu a caminho do trabalho, quando percebo que o cobrador está
cochilando. Antigamente, como o próprio nome diz, a função do cobrador era a de
cobrar a passagem. Exigia alguma formação, pois seu job description incluía ”fazer
o troco” para os passageiros. Aos poucos, no entanto, foi introduzido nos
ônibus urbanos a catraca eletrônica: a maior parte dos passageiros simplesmente
encosta um cartão magnético em um painel próximo à catraca, e esta é liberada.
Como era de se esperar, a função do cobrador esvaziou-se: hoje, ele serve
apenas para cobrar a passagem de alguns paraquedistas que não possuem o cartão
magnético (um a cada 50 passageiros? a cada 100? Não deve ser mais do que
isso), e, os mais pró-ativos, para botar o braço para fora e sinalizar que o
ônibus vai virar para a direita, auxiliando o motorista. Em cidades do chamado
“1o. mundo”, não existe nem catraca nos ônibus: os passageiros entram e
simplesmente aproximam o cartão magnético do painel, debitando o valor da
passagem. Aleatoriamente, um fiscal entra nos ônibus para verificar o cartão
dos passageiros, e pesadas multas são aplicadas para os “espertinhos”. Mas,
antes de tudo, como em muitas coisas do chamado “1o. mundo”, o sistema funciona
na base da confiança.

Pois
bem, com a introdução dessa novidade tecnológica, era de se esperar o
desaparecimento, ao menos gradual, da figura do cobrador. Mas isso significaria
criar um problema social: desempregar uma quantidade imensa de pessoas. Assim,
para evitar este custo, os cobradores foram mantidos em seus postos. E aquele
que eu estava observando aproveitava o seu tempo da forma que achava mais
produtiva: dormindo.

Vamos
analisar as implicações macroeconômicas da decisão de manter os cobradores
empregados. Nesta semana, o IBGE divulgou a menor taxa de desemprego desde o
início da série: 4,6% em dezembro. Trata-se de uma situação de pleno emprego,
pois é natural que haja algum desemprego gerado pela transição entre empregos.
Este mesmo índice estava acima de 12% no início da década passada. Assim, uma
parte importante do crescimento econômico da última década se deu pela
incorporação de uma massa de trabalhadores ao sistema.


Para
entender como isso funciona, será útil lançar mão do modelo Solow-Swan de
crescimento econômico. Desenvolvido independentemente pelos economistas
norte-americanos Robert Solow e Trevor Swan, o modelo Solow-Swan preconiza que
existem três fatores que explicam o crescimento econômico: mão-de-obra, capital
e tecnologia (ou produtividade). Assim, é possível crescer acrescentando
mão-de-obra ou capital à economia, ou fazendo com que esses dois fatores
tornem-se mais produtivos. No caso brasileiro, o crescimento econômico da
última década se deu basicamente pela incorporação de mais mão-de-obra ao
sistema produtivo, sem pressão relevante de salários. O desemprego despencou
como efeito deste processo, e chegamos à atual situação: escassez de
mão-de-obra. Esta escassez reflete-se no crescimento da renda real do trabador,
que vem subindo consistentemente há mais de 10 anos. Não há categoria que não
consiga aumentos salariais acima da inflação corrente. É o preço que ajusta a
oferta à demanda de mão-de-obra. Aliás, esta pressão de salários é um dos
fatores responsáveis, além do chamado custo Brasil, pela corrosão da
competitividade da indústria brasileira.

Pois
bem, tendo incorporado praticamente toda a mão-de-obra disponível, o
crescimento econômico, segundo o modelo de Solow-Swan, deveria se dar pelo
aumento da produtividade. Esse aumento deveria ocorrer via incorporação de novas
tecnologias (novas máquinas e processos produtivos) e/ou qualificação da
mão-de-obra. Em outras palavras, só conseguiremos crescer mais se conseguirmos
produzir mais com a mesma mão-de-obra. 

Aqui voltamos ao cobrador dorminhoco.

Ao
introduzir uma nova tecnologia (o cartão magnético), o sistema de ônibus urbano
abriu a possibilidade de fazer mais com menos mão-de-obra. O custo do sistema
seria reduzido com a dispensa dos cobradores, ganho este que poderia ser
transferido para os preços das passagens, ou em investimentos na melhoria do
sistema como um todo.


Mas e o custo social, Dr. Money? Você é tão insensível que não se comove com o
drama dessas famílias que ficariam sem a fonte de seu sustento?

Sou
sensível, e sinto muito realmente por estas famílias. Mas sei que o custo dessa
“caridade” é repartida pela sociedade como um todo, na forma de passagens mais
caras, sistema mais ineficiente e, no final do dia, em menor crescimento
econômico, o que acaba afetando todas as famílias brasileiras. Por outro lado, há
escassez de mão-de-obra em vários setores. Estes cobradores deveriam ser
requalificados, para poderem ser aproveitados em outras atividades.

Um
outro exemplo: os frentistas. Já há tecnologia suficiente para implantar o
auto-atendimentos nos postos de gasolina, como acontece em qualquer cidade do
chamado “1o. mundo”. Mas uma lei do ano 2000 simplesmente proíbe o
auto-serviço nos postos de combustível. No post O preço da gasolina e seus
mistérios, vimos que a margem da distribuição é de R$ 0,50 no Brasil e somente
R$ 0,15 nos EUA. O custo da mão-de-obra é um dos fatores que fazem a diferença.
Seria melhor para o conjunto da sociedade, principalmente em um quadro de
escassez de mão-de-obra, que se permitisse a redução desse custo, e a
realocação dessa mão-de-obra para outros setores mais necessitados.

O
cobrador sonolento poderia estar produzindo em outro setor econômico, mas
desperdiçava capacidade de trabalho dormindo dentro de um ônibus. Um retrato
acabado da baixíssima e estagnada produtividade da economia brasileira.

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