Com US$ 650 mi em caixa, alemã FlixBus desembarca no Brasil em 2021

Por Exame – Carolina Ingizza
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A startup alemã FlixMobility, dona das marcas FlixBus e FlixTrain, planeja desembarcar no Brasil ainda neste ano. Fontes próximas da empresa disseram ao EXAME IN que a companhia, avaliada em US$ 3 bilhões, está determinada a investir parte importante de sua última rodada de US$ 650 milhões, anunciada na quarta-feira, 2, para iniciar suas operações de ônibus no país em 2021.

Fundada em 2013 pelos ex-consultores do BCG André Schwämmlein e Jochen Engert e pelo ex-funcionário da Microsoft Daniel Krauss, a FlixBus foi criada para aproveitar a abertura do setor de transportes da Alemanha. Com um modelo similar ao da Uber, a companhia optou por construir uma marca forte de ônibus rodoviários sem possuir quase nenhum veículo — e acabou derrubando os preços das passagens.

A estratégia da startup consiste em fazer parcerias com pequenas empresas locais que operam em seu nome, enquanto sua equipe se dedica ao planejamento de rotas, precificação de passagens e vendas online. Por meio de aquisições, se consolidou como uma das maiores empresas do setor da Europa, e hoje conecta mais de 2.000 cidades em 30 países. Desde 2018, a empresa atua também no setor de trens e expandiu para os Estados Unidos.

Entrar no mercado brasileiro não é uma meta nova para a empresa. Edson Lopes, que foi diretor de operações da startups de hotelaria OYO e chefe de várias equipes na operação brasileira da Uber, foi contratado pela companhia no final de 2019 para organizar a chegada da empresa ao Brasil. Para ajudá-lo, Gloria Burlamaqui, ex-gerente da Lime e do Airbnb, foi trazida para comandar as operações no país. Dois motivos impediram que os planos da startup saíssem do papel em 2020: a pandemia de coronavírus e os desafios regulatórios do setor no país.

Após transportar 62 milhões de passageiros em 2019 e receber um aporte de US$ 500 milhões, a FlixBus estava pronta para expandir para América do Sul e Ásia no começo de 2020, quando a crise da covid-19 começou. Assim como outras empresas de turismo e transportes, a empresa viu seu faturamento despencar em todos os mercados em que atua.

Mesmo adotando medidas de segurança, a startup precisou paralisar boa parte de suas operações e planos de expansão. Segundo informações do site americano Techcrunch, a empresa conseguiu lançar só algumas novas rotas em Portugal e no Reino Unido. A equipe do Brasil, então, aproveitou o período de pausa para buscar empresas locais de ônibus que pudessem ser parceiras, desenvolver rotas, trabalhar na precificação e organizar a parte regulatória.

Agora, com a vacinação avançando na Europa e nos Estados Unidos, os fundadores da FlixBus começam a ver a luz no fim do túnel. A expectativa é que durante o verão do Hemisfério Norte, que começa dia 21 de junho, os números retornem aos patamares pré-pandemia. O aporte foi o empurrão que faltava para que os planos de expansão internacional fossem retirados da gaveta em 2021. Brasil e Estados Unidos, dois grandes mercados de transporte terrestre, são os grandes focos da empresa no momento. Por aqui, a expectativa é que a FlixBus comece a operar nos trajetos mais populares no país, como São Paulo-Rio de Janeiro, oferecendo preços até 40% mais baratos que os das viações tradicionais.

O desafio é que, para começar a operação, a FlixBus espera a autorização do regulador. Pessoas próximas à companhia disseram ao EXAME IN que os executivos estão otimistas de que conseguirão o aval da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) ainda em 2021. Caso não seja possível, a companhia está disposta a investir parte de seus recursos em uma briga judicial ou em uma aquisição de uma companhia do setor já autorizada a operar nas rotas desejadas pela empresa. A mensagem é clara: não importa o caminho, o objetivo é começar a fazer viagens no Brasil ainda neste ano.

No Brasil, a startup com modelo mais parecido com o da FlixBus é a mineira Buser, fundada em 2017 pelo engenheiro aeronáutico Marcelo Abritta. A empresa oferece aos clientes a opção de fretar em conjunto ônibus para um mesmo destino, o que resulta em passagens mais baratas. O negócio atraiu investidores como SoftBank, Monashees, Valor Capital Group e Canary, mas provocou a ira de companhias rodoviárias tradicionais, que alegam que seu serviço descumpre a legislação brasileira — segundo a norma, o serviço de transporte de passageiros entre cidades é público e precisa ser autorizado pela Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT).

Como resposta à nova concorrência, empresas do setor tradicional vêm modernizando o serviço, tentando imitar algumas das facilidades oferecidas pelos aplicativos, como o embarque sem impressão da passagem. Algumas delas já adotaram seus próprios aplicativos para atuar no mercado. O mais famoso é o WeMobi, do Grupo JCA, dono de empresas tradicionais de viação como Auto Viação 1001, Viação Cometa, Viação Catarinense e Rápido Ribeirão.

Aos poucos, a regulação está abrindo espaço para os novos competidores. Tramita agora na Câmara dos Deputados, por exemplo, o Projeto de Lei nº 3.819/20, já aprovado pelo Senado, que cria novas regras para os serviços não regulares de transporte terrestre coletivo. O texto estabelece normas para as empresas interessadas em operar linhas rodoviárias, como a necessidade de especificar o itinerário, ter frota própria para operar pelo menos 60% das linhas pretendidas e capital social de no mínimo R$ 2 milhões, mas não limita o número de autorizações que a ANTT pode dar por trecho.

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