Ônibus Paraibanos

Ônibus de João Pessoa perdem 4,8 milhões de passagens pagas por ano

Por Portal Correio
Imagem JC Barboza
Vídeo Divulgação

O sistema de ônibus de João Pessoa sofreu uma queda de 30% no número de passageiros, conforme levantamento divulgado nesta terça-feira (17) pelo Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de João Pessoa (Sintur-JP). Alegando crise, o setor relata que viu o número de passagens pagas cair de 95 milhões em 2013 para 66 milhões em 2019, uma média de 4,8 milhões a menos por ano.

Os dados foram apresentados durante um encontro entre empresários do setor, representantes da Prefeitura de João Pessoa e do Governo do Estado, em um hotel na Orla da Capital.

“Chegamos a ter a terceira frota mais nova entre as capitais do Brasil, mas nossa situação hoje é bem diferente. Mais uma empresa fechou neste ano, a Mandacaruense. O modelo atual de nossa operação precisa ser revisto urgentemente. Nosso sistema foi planejado há 30 anos, com as linhas definidas para atender os cinco corredores principais da cidade. Temos linhas que rodam o domingo inteiro e só transportam 100 passageiros, isso representa um custo grande e é um dos pontos que precisam ser reavaliados”, revelou Alberto Pereira Nascimento, presidente do Sintur-JP.

Motivos da crise

De acordo com o presidente do Sintur-JP, a tarifa seria mais barata se não houvesse Imposto Sobre Serviço (ISS), pago ao Município, e o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o óleo diesel. Ele aponta ainda 33% de clientes que têm direito à gratuidade ou possuem benefício na passagem, como é o caso dos estudantes. O presidente também citou o sistema de integração e os transportes por aplicativos entre os culpados pela crise.

“A realidade é que a situação atual do setor é muito delicada. O único meio de transporte que oferece meia passagem para estudantes, transporta idosos, pessoas com deficiência e outras categorias gratuitamente está ruindo. Hoje, os ônibus estão cada vez mais transportando apenas quem faz viagens mais longas e/ou tem benefício na passagem”, disse Alberto.

No Brasil

O palestrante do encontro, Dimas Barreira, presidente do Sindiônibus Fortaleza (CE), citou que a crise do transporte público ocorre em outras partes do país. “Em Fortaleza, João Pessoa e em todo o Brasil os desafios são os mesmos, com algumas diferenças pontuais. Estamos muito perto de um ponto de insustentabilidade. O transporte coletivo é o direito social que garante acesso a todos os outros direitos. Todo mundo é cliente do nosso sistema, seja ou não usuário de ônibus, pois sem o transporte público os serviços não funcionam, as cidades param e as pessoas ficam desassistidas. Todo mundo precisa se conscientizar disso”, destacou Barreira.

Possíveis soluções

Dimas citou algumas experiências positivas de Fortaleza que contribuíram para o transporte público da capital cearense, entre elas a isenção do ISS; a redução do ICMS sobre o óleo diesel para 8,5% em 2010; a criação de linhas intra-bairros, com passagens de um real para quem se desloca em trajetos curtos e a implantação de 120 km de faixas exclusivas para ônibus.

O diretor institucional do Sintur-JP, Isaac Júnior Moreira, pontuou que mesmo com todas as dificuldades, já foram implantadas algumas iniciativas em prol dos passageiros. “Toda nossa frota operante tem câmeras de vigilância, temos mais de 80 pontos de recarga e fazemos inclusive recarga online, disponibilizamos para os usuários o aplicativo Jampa Bus, e, agora em 2019, mudamos nosso sistema de embarque para biometria facial, que oferece mais segurança e confiabilidade”, finalizou Isaac.

Formato

A crise no transporte coletivo em João Pessoa e Campina Grande vem sendo assunto desde o início deste ano. Ao longo de 2019, foram registradas paralisações, ameaças de greve e problemas no pagamento de salários dos operadores do sistema.

Em agosto deste ano, o professor Nilton Pereira, do curso de Engenharia Civil da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), fez críticas ao atual modelo implementado para garantir transporte à população e disse que o sistema poderá falir se não passar por uma grande reformulação que envolva não só as empresas, como também o poder público.

“Sempre vai ter espaço para o transporte público coletivo, desde que ele se reinvente, e não tente competir com os aplicativos. É preciso tirar lições desse fenômeno, entender as preferências do usuário e buscar alternativas para melhorar a qualidade do serviço e atrair o usuário”, afirmou Nilton Andrade naquele mês. Veja aqui novamente.

Novo sistema para João Pessoa

João Pessoa tem um amplo projeto para reformulação total do sistema de ônibus, mas que nunca saiu do papel. Desde 2014 que se discute a implantação do BRT (sistema de ônibus rápido na sigla em inglês), que permitiria a construção de novos terminais, corredores exclusivos, alteração da distribuição de linhas e veículos mais modernos.

Ano passado, a Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana (Semob-JP) anunciou que o projeto sofreu alteração e passaria a ser ‘Linha Troncal de Transporte Coletivo de Massa’. As obras deveriam ter começado no início de 2019.

Estamos em dezembro de 2019 e nada de concreto foi colocado em prática: o sistema de ônibus permanece o mesmo, com as reclamações dos empresários de um lado e a insatisfação de usuários do outro. No fim, passageiros acabam recorrendo, como podem, a outras alternativas de mobilidade – nem sempre as mais seguras ou legalizadas.

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