Busólogos dedicam-se a cultuar ônibus em viagens e festivais

Eles são dezenas de milhares que debatem na internet e produzem conhecimento sobre o tema

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Por Folha de São Paulo via Zero Hora
Imagens Divulgação

Você é um volvista, mercedista ou scanista? Você colocaria a vida em risco para tirar a foto de um pneu?

Se nada disso faz sentido para você, talvez você não seja um busólogo.

Tem gente que gosta de carro antigo, há quem vá ao aeroporto para ver os novos aviões, tem quem ame bicicletas. E tem gente que gosta de ônibus.

Adamo Bazani, 40, sente-se confortável no Terminal Tietê, em São Paulo. Sabe reconhecer numa batida de olho os modelos dos ônibus, mesmo que para os leigos cada um dos detalhes não signifique muito.

Dono de um dos principais sites de transporte do país, o Diário do Transporte, Adamo começou a gostar de ônibus aos 5, quando pediu aos pais para fazer um turno inteiro ao lado de um motorista. Ficou oito horas fazendo o percurso de Santo André para a capital.

Em seu aniversário de 15 anos, pediu de presente a seu incrédulo pai uma visita a uma garagem de ônibus. Hoje, tem 450 miniaturas de ônibus em casa. Boa parte delas são de veículos da Padroeira do Brasil, viação cujos ônibus ele frequentava quando criança.

“Eu gosto do design de carroceria. Quando era pequeno, tinha uma empresa fictícia, a Caab, Carrocerias de Automóveis Adamo do Brasil. E trocava desenhos com um rapaz do meu bairro, que era dono de uma empresa também fictícia”.

Ninguém sabe ao certo quantos busólogos existem no país. Há quem fale em 30 mil, há quem calcule 180 mil.

Mas há certo consenso sobre quem começou a história: Hélio Luiz de Oliveira. Ele é apontado como o primeiro brasileiro a ter sido chamado de busólogo.

Trabalhando em 1985 na Thamco, em São Paulo -empresa que produziu ônibus de dois andares encomendados pelo prefeito Jânio Quadros (1986-1989)-, Oliveira impressionou colegas estrangeiros com seu repertório e ganhou assim o epíteto de busólogo. “Diziam: ‘esse cara é um filósofo do ônibus'”, conta Oliveira.

Aos 56, ele participa de 57 grupos de WhatsApp sobre o tema. No passado, ele precisou de força nos punhos para construir um acervo invejado.

No final da década de 1970, enviou cartas para consulados e embaixadas pedindo os endereços de todos os fabricantes de ônibus nos respectivos países. Escrevia, então, para as próprias empresas, pedindo mais informações. Dessa forma, catalogou 276 produtoras de carrocerias até 1979.

Oliveira tem cultivado sua paixão pelos ônibus na revista Inbus Transport, da qual é diretor-presidente, e também em viagens de longa duração, nas quais ele desfruta do percurso e do veículo, mas pouco do destino. Recentemente, foi de São Paulo a Fortaleza, ficou 24h na cidade cearense e embarcou de novo no ônibus.

Hoje, no horizonte, desponta a rota São Paulo-Lima, no Peru. Quase 9.000 km de deleite, contando a ida e a volta.

“O busólogo é um cara técnico. Não é o cara que acha que o ônibus é um pão de forma gigante. Eu, por exemplo, consigo identificar o ônibus apenas pelo cubo da roda, ou seja, pelas características como o design e o número de parafusos”, explica. A produção de saber especializado é uma das consequências positivas da dedicação dos aficionados.

Hélio Luiz de Oliveira

Um bom termômetro da popularidade da busologia é o BusBrasil Fest, que acontecerá pela 13ª vez em novembro. No ano passado, 15 mil pessoas foram ver os 175 ônibus expostos, entre relíquias de colecionadores e novidades de fabricantes, na praça Charles Miller, em São Paulo.

“Quando era mais novo, pensava que era o único louco que gostava de ônibus. Em 1999, com a popularização da internet, conheci pessoas de outras cidades. Em 2001, fizemos a primeira edição do evento, numa garagem, com 11 ônibus e 50 pessoas. Neste ano, esperamos caravana da Bahia, do Rio, de Minas, do Paraná, do Uruguai, da Argentina, dos Estados Unidos”, diz Juverci de Melo, 40, organizador do festival.

A internet é fundamental para consolidação desse grupo, que primeiro se uniu em fotologs e blogs, depois em comunidades no Orkut e hoje acumulam milhares de seguidores em seus canais no Youtube.

Nas redes, é possível encontrar montagens com a ativista ambiental adolescente Greta Thunberg com placas que dizem “Vissta Bus é melhor que o Paradiso G7”, e “Chassi bom é o K113 moralizador”.

Para muita gente, essas mensagens não querem dizer nada, mas na página do Facebook Humor Busólogo acumulam dezenas de comentários. A página tem 9.000 seguidores.

“Damos dicas de como não fazer algumas coisas para não passar vergonha. Se você procurar ‘busólogos’ no YouTube vai ver muita gente zoando. No Rio, tem um rapaz que gravou um vídeo correndo atrás de um modelo Invictus da Novo Horizonte. Essas pessoas queimam o filme de quem faz do hobby uma coisa mais sadia”, diz Lucas Lima, 23, um dos administradores da página.

Os mais jovens são a maior parte da comunidade de busólogos, que se encontram em rodoviárias para checar as novidades. É dessa turma que costumam vir as divisões entre mercedistas (que gostam dos chassis de ônibus da Mercedes-Benz), scanistas (da Scania) e volvistas (da Volvo) -que fazem a piada “volvado seja”.

Bazani se empolga com as carrocerias, ou seja, a parte que está acima do chassi. Tem também gente que gosta dos faróis, do motor, da tecnologia.

Esse é um primeiro grupo de busólogos, os que se empolgam com a máquina. Há também os que se encantam pela história e que são fãs de modelos antigos. E os que gostam do sistema de transporte público. Bazani diz que já passou pelas três categorias.

O bancário aposentado Mário Custódio, 63, guarda acervo de quase 20 mil fotos de ônibus, tiradas desde 1975. Hoje ele pesquisa a pintura dos ônibus – é contra a pintura padronizada de ônibus estaduais, que, segundo ele, confunde os passageiros – e é saudoso dos tempos que São Paulo teve os “saia e blusa”: ônibus que tinham uma faixa de baixo, que indicava a região, imposta pela prefeitura, e uma outra de cima, escolhida pela viação.

Ônibus fotografado por Mário Custódio nos anos 1980 em São Paulo

A padronização da pintura foi motivo de cizânia da comunidade busóloga do Rio, quando a prefeitura da gestão Eduardo Paes decidiu, em 2010, que todos os ônibus municipais deveriam ter a mesma identidade visual. Favoráveis à padronização foram classificados como direitistas, associados à ditadura militar e chamados de “burrólogos” ou “brutólogos”.

Para os busólogos, os ônibus têm valor afetivo passado, como referência a outro período da vida, e presente, como intermediários de relações com semelhantes, explica o cientista social Fábio Viana Ribeiro na tese de doutorado “Entre os extremos do consumo”, defendida na PUC-SP.

Os aficionados, argumenta a tese, separam uma parte do mundo “dentro da qual é possível parar o tempo e viver dentro de uma ordem mais estável e satisfatória”.

Diferente do que acontece na vida cotidiana, na qual a “‘busca pela felicidade'” deverá ser feita em meio a variadas dificuldades”, o universo dos colecionadores e aficionados é constituído “daquilo de que se gosta, povoado por outros que irão compartilhar desse mesmo gosto, alheio a inconvenientes de ordem institucional”.

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