Mercado de usados: o reflexo da realidade de mercado de cada empresa

Tal como o mercado de ônibus zeros, o de usados reflete bem a realidade de mercado

Por Ônibus Paraibanos
Imagens JC Barboza / Gilberto da Costa Junior

Quando uma empresa não pode adquirir ônibus novos no momento, por motivos de crédito ou pressa para renovar a frota, ela recorre ao mercado de usados. Tal como o mercado de ônibus zeros, o de usados reflete bem a realidade de mercado, seja num momento de economia favorável, seja no aperto.

Vamos tomar como exemplo o caso da São Jorge, maior compradora de ônibus usados da Paraíba. Neste ano de 2019, a empresa renovou a frota com quase 30 unidades do Marcopolo Torino oriundas da Borborema Imperial Transportes, de Recife. É a primeira vez que a empresa faz uma compra tão expressiva perto demais, para quem trazia carros do Rio de Janeiro. Essas unidades substituem outras que já rodaram aqui, e que eram do próprio fretamento. E foram incorporadas à frota justamente porque esse boom havia passado. E estão voltando agora para lá.

O boom do fretamento da São Jorge se deu entre 2012 e 2014, quando a empresa conseguiu vários contratos com construtoras em vários estados nordestinos afim de transportar operários dessas obras. Eram contratos que exigiam carros com média de idade abaixo dos 7 anos. E para não perder, não era preciso escolher – era para arrumar o que pudesse, onde desse.

Esses foram ônibus adquiridos num contexto de “arrumar o que puder”, no boom do fretamento da São Jorge. Quando isso aconteceu, o que tinha disponível em maioria para a empresa eram ônibus da CAIO, visto que ela procurou no mercado do Rio de Janeiro, daí a maioria dessa compra ser de Apache Vip.

Em comparativo, o fretamento não exige tanto – visto que a empresa perdeu vários e o que segurou, não são contratos que exigem muito – e o mercado do Rio de Janeiro não tem mais o que as empresas paraibanas procuram. Daí a procura mais frequente nos estados vizinhos, que tem um perfil de aquisição parecido com o nosso – e isso agora está mais difícil. Nem se as empresas de João Pessoa um dia adotarem ar condicionado, elas voltariam a comprar no Rio. CAIO só em último caso.

A grande realidade é que a São Jorge só adquiriu esses CAIO porque era o que tinha disponível na ocasião – nunca foi a primeira opção dela. Depois do boom e de algum tempo sem adquirir carros, o que ela foi procurar em 2018 e 2019 para renovar a frota municipal? Marcopolo Torino – em 2018, ex-Vera Cruz de Belford Roxo; em 2019, os ex-Borborema. Essas empresas possuem outros modelos nas suas frotas, mas a preferência da São Jorge é essa: o Torino.

A troca dos Apache Vip de 2010 – sim, saíram antes de bater os 10 anos de uso – pelos Torinos se justifica justamente pela otimização de seu almoxarifado e pela necessidade de adicionar veículos com mais lugares, o que os Vip ex-Pendotiba e Suzantur Mauá não tinham. Os ex-Novacap permanecem até esse ano – são alongados e possuem mais lugares – e nada mais lógico que serem substituídos por Torinos, não se sabe de que procedência, mas Torinos. Empresa de ônibus não é coleção, e padronizar a frota é estratégia de otimização de custos e logística.

Ainda no Consórcio Navegantes, falamos também da Marcos da Silva, que também segue o perfil de aquisição nos estados vizinhos, porém a estratégia de momento vai na linha do “arrumar o que puder”, justamente porque a frota da Mandacaruense, que ela acaba de assumir, possuía vários carros que precisavam ser substituídos para ontem, afora a sua própria necessidade de renovar as linhas que possuía antes da fusão. Importante era arrumar carro rodando dentro da idade média. Daí a miscelânea enorme que se vê na frota da empresa, com Marcopolo, CAIO, Neobus, e até Mascarello, tudo isso com 3, 4, 5 modelos de chassi de três montadoras e quatro marcas de letreiros eletrônicos. Isso uma hora não vai durar; a Marcos da Silva com o tempo vai escolher o que melhor se adequa aos seus custos, agora que assumiu a Mandacaruense.

Nem precisamos falar do que as empresas fariam se comprarem ônibus novos: elas vão na lógica da casadinha Marcopolo + Mercedes-Benz. Isso resume bem o que queremos dizer com planejamento logístico, e isso só se altera – levemente, nunca radicalmente – conforme o sistema muda. Um parágrafo resume bem.

Como dito, empresa de ônibus não é uma coleção. É, antes de mais nada, uma empresa que lida com logística, e principalmente, almoxarifado. Até uma coleção precisa de manutenção, pois um carro parado por falta de peças disponíveis custa caro para a empresa manter na garagem. O que ela quer é carro rodando.

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