Nicola, a origem da Marcopolo

Fonte: Lexicar
Fotos: Divulgação

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Empresa que deu origem à Marcopolo, um dos mais importantes fabricantes de carrocerias do planeta, a Nicola & Cia Ltda. foi fundada pelos irmãos Nicola (Dorval Antônio, Doracy Luiz e Nelson João) e mais seis sócios, em agosto de 1949, como oficina de pintura e lanternagem de automóveis e construção de carrocerias para caminhões. Todos eram operários especializados – pintores, chapeadores, lustradores, carpinteiros. No ano seguinte seria admitido mais um sócio, Paulo Bellini, agregado à área administrativa, que décadas depois viria a ser presidente da futura Marcopolo. Utilizando o nome de fantasia Carrocerias Caxiense, instalou-se em um galpão de madeira no centro de Caxias do Sul (RS). O prédio seria vitimado por vários incêndios até que em 1957 as instalações fossem transferidas para o bairro Planalto, então local ermo e sem energia elétrica, hoje centro expandido da cidade onde a Marcopolo ainda concentra parte das suas atividades.

Desde o início, ainda que esporadicamente, a Nicola construiu carrocerias para ônibus, as primeiras delas levando três meses para serem concluídas. Os veículos dos primeiros anos, todos eles com estrutura de madeira, foram fabricados sobre chassis de caminhões norte-americanos leves e médios, a gasolina, em geral assumindo a configuração típica de motor externo e capô e para-lamas salientes. Lentamente prevaleceriam as carrocerias com motor interno, ainda assim mantendo o estilo massudo e pesado dos modelos primitivos, caracterizado pelas janelas pequenas e pelos para-brisas planos, muito inclinados, embutidos na dianteira. Mesmo assim trariam inovações, tais como a introdução de janelas de correr, incomuns no país até meados da década de 50. Como era usual na época, a padronização era mínima e os carros se diferenciavam muito entre si, em dimensões e detalhes de acabamento, sendo enorme a quantidade de variantes, ainda que se tratasse do mesmo modelo de chassi.

Sua primeira carroceria metálica foi construída para uma empresa gaúcha em 1952, um pequeno ônibus rodoviário com motor interno e janelas mais largas do que as que vinham sendo utilizadas. No ano seguinte a maioria dos seus veículos já trazia estrutura metálica, enorme salto tecnológico traduzido em redução de peso, de custos e tempo de fabricação. Procurando refletir estes avanços, em 1954 a empresa abriu o capital, alterando a razão social para Carrocerias Nicola S.A. Manufaturas Metálicas. Em 1956, com a inauguração da Mercedes-Benz brasileira, a Nicola passaria a utilizar os chassis da marca com freqüência cada vez maior, tanto na produção de lotações como de ônibus com motor interno (sempre dianteiro). Sua atuação quase que restrita ao mercado regional não lhe permitia, porém, vôos altos. Mantendo-se discreta, a Nicola pouco cresceu ao longo da década de 50 (completaria dez anos, em 1959, com apenas 600 carrocerias fabricadas).

A inauguração da nova planta de Planalto, em 1957, e a disponibilização dos chassis Mercedes-Benz – nacionais e padronizados (embora rudimentares e ainda derivados de caminhões) – incentivou a Nicola a lutar por melhor posição no mercado. Para começar, procurou dar maior atenção ao estilo de suas carrocerias, já naquele ano dando início à padronização das linhas e introduzindo faróis duplos, chapas frisadas, colunas inclinadas, janelas mais longas e para-brisas panorâmicos, embora logo substituídos por bipartidos – as partes centrais planas, de vidro, e os cantos de acrílico. Ainda que demonstrasse certo cuidado com os detalhes de acabamento, contudo, o desenho das carrocerias ainda era de certa forma primário, com grades excessivamente rebuscadas, de desenho quase kitsch, e amplas laterais metálicas, cuja impressão de “peso” era reforçada pelas largas colunas e pelo longo correr de janelas estreitas.

Em 1960 a empresa finalmente se voltou para fora do Rio Grande do Sul, iniciando campanha de propaganda em órgãos de imprensa de alcance nacional em busca da ampliação do mercado. Além disso, valendo-se de sua localização favorável, mais próxima dos países vizinhos do que dos grandes centros consumidores brasileiros, também se lançou para o exterior, já em 1961efetuando as primeiras vendas para o Uruguai. A estratégia se mostrou acertada: apoiada pelo aprimoramento dos processos fabris e por programas de treinamento a produção cresceu fortemente, chegando a 240 unidades no final de 1960 – equivalente a 40% de tudo o que se fabricou nos dez anos anteriores.

Em sua primeira participação no Salão do Automóvel, em 1962, a Nicola apresentou no stand do Estado do Rio Grande do Sul um bem acabado rodoviário sobre o acanhado chassi Mercedes-Benz LP. O veículo anteciparia as linhas de seus próximos lançamentos nas janelas muito mais amplas e com cantos de raios menores, nos para-brisas maiores e mais inclinados, na menor altura do teto e no formato das caixas dos faróis. Todos estes atributos, e mais uma nova grade e cúpulas do teto moldadas em fibra de vidro, reapareceriam no grande lançamento do Salão seguinte, em 1964, naquele que seria o primeiro grande sucesso nacional da marca, o modelo Nicola 65, em versões urbana e rodoviária.

O rodoviário, montado sobre chassis Scania-Vabis ou FNM e denominado Série Ouro, possuía poltronas reclináveis com assento deslizante em três posições, descansa-pés reguláveis, parede divisória para o motorista, toalete em fibra de vidro, calefação e sistema de som, modernas características que, com o tempo, passariam a ser comuns a todos os ônibus rodoviários do país. Primeiro produto “estado da arte” da Nicola, o Série Ouro abriu para a empresa as portas do futuro, identificando a marca com produtos modernos e bem acabados (simultaneamente foi lançado a Série Prata, menos equipada e com materiais mais simples, porém a versão não obteve nenhum sucesso).

O lançamento potencializou a demanda e empurrou a produção, que chegou a 467 ônibus em 1967, ano em que foi fabricada a carroceria nº 3.000. Com 55 unidades mensais a fábrica de Planalto chegou à sua capacidade máxima, exigindo expansão, iniciada naquele mesmo ano. Ainda em 1967, apesar da ascensão contínua e do bem estruturado plano de crescimento da empresa, os irmãos Nicola se retiraram da sociedade para abrir a Nimbus, negócio mal-sucedido que, ironicamente, dez anos depois acabaria nas mãos da própria Marcopolo.

Em 1968, no VI Salão do Automóvel, a Nicola jogou um lance decisivo, que mudaria seu destino e a alçaria, ao longo das três décadas seguintes, ao posto de maior indústria fabricante de carrocerias de ônibus do país e uma das maiores do mundo: o lançamento do modelo Marcopolo, tão bem recebido que acabou por se transformar no próprio nome da empresa. Se a Série Ouro trouxe respeitabilidade e confiança ao produto, o modelo Marcopolo trouxe beleza e modernidade, finalmente conseguindo elevar a marca ao primeiro escalão das encarroçadoras brasileiras. Devidamente acompanhado de um novo logotipo, o modelo integrava design europeu a modernas técnicas construtivas, propiciadas pela recente reestruturação da planta industrial de Planalto. Trazia muitos detalhes práticos e bem estudados: poltronas-leito reclináveis em quatro posições e montadas sobre trilhos, cintos de segurança, “som estereofônico” individual, assentos identificados por indicadores luminosos, eficiente sistema de ventilação com tomadas de ar no teto, limpadores de para-brisas com haste dupla e esguichos, vigia traseira inteiriça, faixas reflexivas de segurança. A carroceria possuía leveza visual inigualada na produção nacional – em especial a dianteira, onde os para-brisas alcançavam o teto, levemente rebaixado na extremidade dianteira, e a caixa de itinerários foi transferida para trás do vidro.

Naquele mesmo Salão a Nicola apresentou seu primeiro monobloco, um urbano construído sobre a plataforma Mercedes-Benz O-321 HL. Embora a carroceria ainda viesse com alguns elementos de modelos antigos, trazia diversas novidades: quatro para-brisas intercambiáveis, portas de duas folhas independentes faceadas com a lateral, sistema de circulação de ar com insufladores-exaustores no teto e, pela primeira vez no país, bancos de fibra de vidro.

Estes novos lançamentos claramente transmitiam a visão de modernidade e eficiência que a empresa pretendia imprimir aos seus negócios e que seria sua marca a partir de então. Possuidora de aguçada capacidade de avaliação, a administração da Nicola/Marcopolo jamais se mostraria satisfeita com as conquistas alcançadas. É significativo que, naquele mesmo 1968, no momento em que a empresa acabava de dar salto tão significativo, um dos seus diretores, indagado por jornalistas sobre o estágio de desenvolvimento da indústria encarroçadora, tenha declarado: “sob o ponto de vista de fabricação, a tecnologia brasileira deixa muito a desejar, comparada com a européia e a americana; do ponto de vista da utilização ou da estética, somos iguais ou melhores que os americanos, mas inferiores aos europeus“.

Num momento de crescimento de mercado como o do final da década de 60, quando se multiplicavam pequenos fabricantes sem estrutura administrativa e com insuficiente base técnica, a Nicola decidiu ser grande – e encontrou o rumo e o ritmo corretos, analisando deficiências, planejando ações e dando passos ousados, mas firmes, fundamentados e bem medidos. Por trás do estilo inovador do modelo Marcopolo e da qualidade gráfica do novo logotipo e das peças publicitárias que anunciavam o novo ônibus estava uma empresa que investia fortemente na modernização gerencial e fabril e na expansão do mercado, abrindo filiais em todo o país e fixando presença no exterior. A gigante Marcopolo de hoje nasceu naquele distante Salão do Automóvel de 1968.

Em 1970, ano em que chegou ao ônibus nº 5.000, a Nicola assumiu o controle da tradicional (e estacionada no tempo) Eliziário, de Porto Alegre, especializando-a na fabricação de carros urbanos montados a partir de peças manufaturadas em Caxias do Sul. O VII Salão do Automóvel, em novembro daquele ano, mostrou duas novidades: o Marcopolo II, atualização do modelo anterior, com nova grade, janelas 14 cm mais altas, sanitários inteiriços e caixa dos degraus moldada em fibra de vidro, e o inovador urbano Veneza, rompimento muito mais radical com o passado do que no caso dos rodoviários. Dotado de teto quase plano, amplas janelas com colunas verticais, para-brisas também planos e intercambiáveis, corredor interno 10 cm mais largo, traseira parcialmente revestida de curvim e capô de fibra de vidro, o veículo teve sucesso imediato.

1970 foi um ano catastrófico para a indústria brasileira de carrocerias. Diversas empresas tradicionais foram vendidas ou cerraram as portas, entre elas Grassi, Cirb, Cermava e Carbrasa. Quanto à Nicola, afastava de vez os fantasmas da crise de mercado que engolfava o setor e partia para o futuro: fixada a marca Marcopolo, abandona definitivamente sua antiga razão social e meses depois, em outubro de 1971, passa a denominar-se Marcopolo S.A. Carrocerias e Ônibus.

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