Ônibus Paraibanos

Vallecio Chieppe (1928-2016): Trajetória de um empreendedor

Fonte: Revista Abrati / G1/ Portal Ônibus Paraibanos
Fotos: Edcarlos Rodrigues / JC Barboza / Acervo Paraíba Bus Team

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O fundador e ex-presidente do Grupo Águia Branca, Vallecio Chieppe, morreu aos 87 anos, na manhã deste sábado (9). Empresário deixou a liderança do grupo por causa do avanço do Alzheimer.

O corpo de Vallecio começou a ser velado às 13h, no Jardim da Paz de Laranjeiras, na Serra, Grande Vitória. O sepultamento vai ser às 16h30, no mesmo local.

Vallecio Chieppe deixa mulher, Nascir Guaitolini Chieppe, e os filhos Decio Luiz, Liliane e Edilene Chieppe, além de netos.

Estrada para as oportunidades

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Carlos, neto e filho de imigrantes italianos chegados ao Brasil em 1889, enxergava longe. Tanto que apostou nas possibilidades criadas pela abertura da BR-116, ligando o Rio de Janeiro à Bahia. Governador Valadares havia se tornado um importante centro comercial e foi para lá que Carlos mandou Vallécio e o veículo recém-adquirido, com a missão de tocar, junto com um motorista, a primeira linha de ônibus da família. Ligava Governador Valadares a Teófilo Otoni, Minas Gerais.

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A linha não era regularizada e, em 1948, outra empresa pleiteou ao DNER permissão para explorá-la. Permissão concedida, Carlos Chieppe, que na época já tinha dois ônibus, decidiu vendê-los e comprar um caminhão, enquanto Vallécio teve de voltar para Colatina. Depois de atuar em vários negócios, como um bar e um caminhão, o patriarca tornou-se sócio de uma empresa com um só ônibus. Em 1955, finalmente, ele e os filhos compraram metade da empresa e fundaram a Vallécio Chieppe & Irmãos.

Trabalho em família

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À medida que o norte do Espírito Santo ia sendo ocupado e se estendiam as plantações de café, o volume de passageiros aumentava. “Os 100 quilômetros que separavam, Colatina de Alto Rio Novo, onde estava a única linha da empresa, eram percorridos em quatro horas. Saía-se de Colatina em um dia e voltava-se no outro”, recorda Aylmer Chieppe. Os três irmãos se revezavam na direção dos ônibus e no trabalho de cobrador.

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No bagageiro não faltavam pá, enxada e correntes de ferro, usadas com muita freqüência, especialmente nos trechos de serra. Terminada a viagem, motorista e cobrador arregaçavam as mangas na limpeza do ônibus, que devia estar impecável para a nova viagem.

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A disciplina e a educação pelo trabalho já eram hábito na Família Chieppe, Na prática do ofício de cobrador, os jovens exercitavam a responsabilidade no trato com o dinheiro de cada passagem e a integridade na prestação de contas da receita. No volante, serra abaixo e serra acima, exercitavam o compromisso com a vida e com o próximo, somado à simpatia com os clientes, quase todos conhecidos pelo nome. Era o começo de uma tradição de muito cuidado na prestação de serviços, valor essencial da cultura do Grupo Águia Branca.

Manter os ônibus em condições de rodar era um desafio. As peças de reposição eram compradas em Vitória ou mandadas vir de São Paulo. As quebras eram freqüentes, por causa da precariedade das estradas. Motorista e cobrador tinham que entender de mecânica para resolver emergências. Nessa época, já eram três ônibus.

Novas sociedades

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Em 1956, Vallécio saiu da sociedade. Wander e Aylmer constituíram então a empresa Irmãos Chieppe Ltda., enquanto Vallécio comprava, em sociedade, a Empresa de Transporte Águia Branca, fundada em 1949 e já com um patrimônio de doze ônibus, a maioria em mau estado. Muito exigente, Vallécio teve que montar nova equipe. A empresa cresceu e em menos de um ano comprava dois ônibus novos.

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Em 1958, Vallécio convidou Wander e Aylmer para sócios na compra da Viação Brasil, no município capixaba de Barra de São Francisco. A concentração de investimentos na nova empresa possibilitou que, em apenas dois anos, a frota fosse ampliada de quatro para 18 carros.

O Inicio da década de 60, o outro sócio da empresa, João Godoy, se retira da empresa. Por sugestão de Vallécio, sua parte é comprada por Aylmer e Wander. Os três irmãos decidem juntar as duas empresas, Viação Brasil e Empresa de Ônibus Águia Branca. Em 17 de fevereiro de 1961, já com 40 ônibus, a razão social da firma Chieppe & Godoy é alterada para Viação Águia Branca Ltda., sendo encerrada a Viação Brasil.

Crescendo na crise e rumo a Vitória (Literalmente)

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Ao longo dos anos 60, os três irmãos tiveram que trabalhar ainda mais. Começava a fase de erradicação dos cafezais do Espírito Santo, com forte impacto sobre a economia do Estado e do país. A Águia Branca tem crescimento discreto, mas permanece firme.

A retomada da expansão se dó a partir de 1970, quando os Chieppe chegam ao Vale do Aço, em Minas Gerais. Eles adquirem a empresa Sayonara, marcando o início da atuação no transporte urbano e ligando os municípios de Ipatinga, Coronel Fabriciano e Timóteo, MG. Gradativamente, o nome Transporte Urbano Águia Branca vai substituindo a marca antiga. Em 1º de outubro de 1970, a Águia Branca adquire o setor norte da Viação Itapemirim, expandindo sua área de atuação no norte do Espírito Santo e dobrando a frota de 75 para 150 ônibus. O investimento representou importante estratégia de crescimento do Grupo, que posteriormente estendeu seu raio de ação por vários municípios baianos também.

O sucesso dessa estratégia leva os três irmãos a criar uma base na região de Vitória, de onde sai grande parte das linhas em operação. Por isso, nesse ano, eles inauguram o Parque Rodoviário de Campo Grande, em Cariacica, ES. Ao mesmo tempo, o já agora Grupo Águia Branca adquire a empresa Expresso São Jorge, de Itabuna, BA. Alguns meses depois também é adquirida a empresa Santa Efigênia, conquistando-se o sul da Bahia. Em 1975, é iniciada a construção do Parque Rodoviário de Itabuna, hoje com 36 mil m2.

Décadas 70 e 80: Compras e expansão

Em 1978, os irmãos Chieppe compram a empresa Nossa Senhora de Fátima e, posteriormente, em parceria com duas empresas regionais, Camurujipe e Viazul, adquirem parte das linhas da SULBA – Companhia Viação Sulbaiano.

Nos anos 80, sempre atentos à evolução dos negócios e dos métodos de gestão, os irmãos Chieppe dão início ao processo de profissionalização do grupo. O cenário nacional é difícil e complexo, mas para a Águia Branca a realidade é promissora. Por isso, intensificam-se os investimentos em obras e em melhorias de infra-estrutura administrativa e operacional. Ao mesmo tempo, buscam-se novos caminhos para a consolidação patrimonial. São adquiridas a Viação Amparo, a Viação Cristo Rei e parte da Viação Santana São Paulo.

Novos serviços, divisões e novos ramos de atuação formando o grupo

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A empresa implementa pioneirismos como a linha executiva com ar-condicionado e o ônibus-leito. Também se inicia nas atividades de fretamento, ônibus para turismo e amplia o serviço de encomendas. Todas as empresas do grupo com atuação em transporte de passageiros intermunicipal e interestadual passam por um processo gradual de substituição dos nomes antigos para Viação Águia Branca, unificando a marca e fortalecendo a imagem.

Em 1982, é adquirido o controle acionário da Vitória Diesel, em Cariacica, ES, concessionária Mercedes-Benz, e a Viação Capixaba, tradicional empresa do Espírito Santo, expandindo a atuação no transporte de funcionários de grandes empresas.

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Monobloco O-370 na década de 1980: Após a compra da Vitória Diesel, a prioridade foi o uso de chassis Mercedes-Benz

Em 1984, é criada a Águia Branca Cargas. Dais anos depois, inicia-se a construção do prédio da sede administrativa do Grupo Águia Branca, em Cariacica, na Grande Vitória.

Em 1987, é criada a holding Águia Branca Participações ltda., com o objetivo de racionalizar a gestão dos negócios do grupo. É feita a aquisição da SULBA, que opera linhas intermunicipais na Bahia, e inaugurada a Vitória Diesel Pneus, que comercializa a marca Michelin e na década de 90, é comprada a Linhares Diesel, revenda Mercedes-Benz na cidade de Linhares, ES, e feita a incorporação da Catarinense Cargas que, juntamente com a Águia Branca Cargas, atua no transporte de cargas fracionadas, encomendas urgentes e movimentação de cargas. A Viação Águia Branca compra as linhas interestaduais de Vitória para o Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador e lança o serviço Plus Service. Finalmente, é inaugurada a Vitória Motors, que comercializa carros nacionais e importados Mercedes-Benz, antes vendidos na Vitória Diesel.

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Vallecio Chieppe deixa a liderança do grupo em 1996, comemoração de 50 anos da fundação da empresa, pelo avanço do Alzheimer.

Dias atuais

Atualmente, a Viação Águia Branca está inserida na Unidade de Passageiros, uma das cinco Unidades de Negócios em que o Grupo Águia Branca está dividido: Passageiros, Cargas, Comércio, Serviços e Infra-estrutura. O desempenho de cada uma é acompanhado pela holding Águia Branca Participações e submetido ao Conselho de Administração.

Com sede no Espírito Santo e faturamento superior a R$ 500 milhões par ano, o Grupo Águia Branca atua em todo o território brasileiro no transporte de passageiros e cargas, comércio e locação de veículos, serviços de logística e de saneamento básico. O modelo organizacional da companhia valoriza ao máximo o ser humano, incentivando permanentemente o aperfeiçoamento profissional dos seus mais de sete mil colaboradores. Ela tem sido sucessivamente incluída entre as empresas melhores para se trabalhar no Brasil. Sua meta é continuar crescendo e desenvolvendo novas atividades, aliando estrutura familiar e competência, responsabilidade e aquisição de novos mercados.

Em 2014, a Viação Águia Branca adquire a concessão de parte das linhas da Bomfim, que deixou de operar no transporte interestadual. Desse modo, obtém linhas para o estado de Sergipe. No final de 2015, a Águia Branca lança seu novo visual, e unifica de vez suas operações com as da Salutaris, de modo que as linhas da mesma passem a ser Águia Branca.

Em nota, os filhos comentaram o falecimento do pai. “Estamos todos sensibilizados com a morte de nosso pai, um homem cuja vida foi toda ela um exemplo que procuramos seguir, que procuramos levar os nossos filhos a seguirem, e que eles certamente terão orgulho que seus filhos sigam. Ele era um homem empreendedor, determinado, ativo e corajoso, que acima de tudo dedicou até quando pôde ao trabalho”, disse a nota.

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