2015, o ano que mudou o transporte interestadual para sempre‏

Fonte: Portal Ônibus Paraibanos
Texto: Josivandro Avelar
Fotos: Acervo Paraíba Bus Team



Quem acompanha esse meio não poderia imaginar que 2015 seria o ano que o transporte interestadual mudaria para sempre. Com o processo de licitação substituído pelo sistema de autorizações especiais da ANTT, por meio dos quais os ônibus deveriam ter no mínimo 15 anos de uso, além de outros direitos e obrigatoriedade de inspeções, começaram a acontecer transformações impactantes no setor do transporte interestadual de passageiros de norte a sul do país, fazendo com que empresas ganhem novos mercados e marcas tradicionais deixem as estradas. Aconteceu de tudo um pouco, até o que parecia impossível.

As novas regras da ANTT fizeram o mercado de transporte interestadual de passageiros literalmente se mexer, de tal forma que marcas consagradas das estradas encolheram ou até sumiram. O novo cenário do transporte interestadual brasileiro fez com que empresas até então desconhecidas ou restritas se tornassem grandes da noite para o dia, bem como empresas já consagradas conquistaram novos mercados. Neste post, vamos relembrar as transferências mais impactantes desse primeiro ano de novas regras, que começaram com mudanças que caíram como uma bomba no mercado e na busologia.
Começou com bomba: Itapemirim e Kaissara
A primeira dessas resoluções a serem amplamente divulgadas em 2015 caiu logo de cara como uma bomba atômica, vendo a maior marca do transporte rodoviário brasileiro encolher para se manter viva, diante de um cenário de crise e conflitos familiares que nos últimos anos foram as notícias mais frequentes que se tinham da Viação Itapemirim.

Numa resolução a qual este portal foi um dos primeiros a divulgar, nada menos que 68 linhas da Viação Itapemirim foram transferidas para a Viação Caiçara. Do dia para noite, uma empresa de apenas três carros e uma linha se tornava uma das maiores do país. Até estilizou seu nome para Kaissara, mas manteve o amarelo característico da ex-controladora das linhas.
Até hoje há quem ainda diga que a Itapemirim literalmente acabou, mas não, a empresa continua rodando, operando 50 linhas. A Kaissara assumiu mercados estratégicos, como linhas para o Sul e Sudeste, até mesmo a Rio X SP e a Rio X Cachoeiro hoje pertencem à essa nova amarelinha. Hoje, a Itapemirim precisou alugar carros da Kaissara para a alta temporada, fazendo com que a marca fosse vista nas linhas que ainda restaram da tradicional empresa, mesmo que ela ainda exista.
Outra bomba: Fim da São Geraldo
A outra resolução da ANTT que caiu como uma bomba em 2015 foi a que autorizava a Gontijo a incorporar de vez a São Geraldo, adquirida pela empresa mineira em 2003. Antes operando com frotas separadas mas com uma numeração só, agora a Gontijo assume as linhas da São Geraldo de vez, bem como a frota da mesma. A fusão visa unificar estruturas e reduzir custos.

Vários carros da São Geraldo já foram transferidos para as subsidiárias do grupo, como a Nacional e a Continental. Mais recentemente, os veículos da São Geraldo começaram a ser definitivamente transferidos para a Gontijo. Poucos receberam a pintura completa, e a maioria já roda com o nome da Gontijo sob a pintura da São Geraldo. A marca desaparece completamente no decorrer de 2016, e junto com ela, sua tradicional pintura.
Não parou: Kaiowa também deixa de existir
A outra incorporação que deu o que falar no transporte interestadual foi a da Kaiowa pela JCA. A empresa que foi criada pelo Grupo Itapemirim e que até então pertencia ao Grupo Comporte, foi vendida ao Grupo JCA e agora é parte da Auto Viação Catarinense.

Isso levou a Catarinense ao mercado do Rio de Janeiro. Com isso, a empresa passou a aproveitar a estrutura já consolidada do Grupo JCA no estado, onde já atuam a 1001, Macaense, Cometa e Expresso do Sul.
Reunidas de Caçador encolheu
Outra empresa a praticamente sumir das estradas brasileiras foi a Reunidas de Caçador-SC. As empresas gaúchas Ouro e Prata e Planalto assumiram as linhas que eram da empresa catarinense, para quem só restou praticamente as operações intermunicipais.

No mesmo bolo foram outras linhas que pertenciam a Real Transportes e Turismo. A Ouro e Prata assumiu três linhas que eram dessa empresa. Isso fez com que as duas empresas gaúchas chegassem até São Paulo, onde nunca antes estiveram. Isso levou as empresas a atuarem em conjunto, vendendo passagens e compartilhando estrutura, bem como já compartilharam uma renovação de frota.
Pluma também encolheu
A Pluma Conforto e Turismo também encolheu nesse ano de 2015. A empresa transferiu quatro linhas para a paranaense Expresso Nordeste.


A empresa se fortaleceu com as novas linhas e investiu na aquisição de uma nova frota, que nem de longe lembra os veículos de quase 15 a 20 anos de uso que a Pluma colocava para rodar nas linhas.
Recife X João Pessoa: Confirmando o que todo mundo já sabia
A onda de resoluções também chegou por aqui. A João Pessoa X Recife é operada atualmente por duas empresas. Uma é a Viação Progresso, a outra era a Bonfim, que em 2013 foi adquirida pelo grupo do empresário Chiquinho Feitosa, que tratou de substituir toda a frota da empresa por veículos oriundos da Viação Princesa dos Inhamuns; primeiro eram G7, depois eram os G6.

Em março, o grupo assumiu definitivamente a concessão da linha. Os G6 ficaram lá, e nomes e prefixos da Princesa deram lugar ao nome “Total”, que viria a ser o nome da nova empresa criada a partir desta única linha, pondo fim definitivo ao nome da Bonfim após quase 60 anos nas estradas.
Desde então, a empresa ainda não fez investimentos significativos, e os G6 continuam lá, até hoje.
Princesa do Agreste: saída sacramentada
Em crise e mal conseguindo operar em sua plenitude, a Princesa do Agreste transferiu praticamente todas as suas linhas para a Viação Cruzeiro, que pertence ao Grupo ADTSA, que também controla a Progresso. A bem da verdade, a Progresso já operava as linhas que eram da Princesa do Agreste, porém resolveu turbinar a Viação Cruzeiro, que até então se restringia a poucas linhas no estado de Pernambuco. À Princesa do Agreste, restou recomeçar no turismo.


A Viação Cruzeiro ainda recebeu as linhas interestaduais da Jotude e Garanhuns Turismo, que na prática eram a mesma empresa. A Jotude já havia fechado as portas após a licitação do sistema intermunicipal pernambucano, quando as linhas da empresa, que havia sido constituída por uma cisão acionária da Progresso, voltaram para a empresa.
Águia Branca: nem precisou de resolução para dar fim à Salutaris
Outra marca que some das estradas brasileiras é a Salutaris, que foi comprada no início dos anos 2000 pela Viação Águia Branca. Para essa mudança, não foi necessária resolução da ANTT; na prática, a Salutaris era parte da própria estrutura da Viação Águia Branca.

A mudança de visual que começou a ser aplicada nesse ano na empresa capixaba deu fim a marca Salutaris; agora tudo é Águia Branca. Os carros da Salutaris possuem a mesma pintura da Águia Branca, e o processo de mudança nesse caso será mais rápido. Logo, a marca Salutaris não deve demorar a sumir das estradas.
Transbrasiliana: Crônicas de um desmonte
A Transbrasiliana transferiu linhas para as empresas Marajó e Araguarina, que na prática são do mesmo grupo empresarial, mas na teoria a transferência de fato ainda não aconteceu.
Estava até tudo pronto para que isso acontecesse, com direito a carros da Transbrasiliana sendo recaracterizados com as cores da Araguarina, mas os veículos apareceram com o nome da Transbrasiliana.

A Transbrasiliana sofre com uma sorte de problemas, desde brigas entre os acionistas até a concorrência com empresas que conseguiram liminares para fazer linhas que se sobrepõem aos itinerários da empresa. E como se não fosse tudo, a empresa passa por um verdadeiro desmonte estrutural, com veículos sucateados, uns incendiados, outros tomados pelos bancos, além de atrasos de salário dos funcionários que em alguns casos chega a até dois meses.

A crise da Transbrasiliana ainda é agravada pela crise do próprio grupo que a controla. O Grupo Odilon Santos perdeu a licitação do transporte coletivo de Anápolis e deixou a cidade após 52 anos de operação da TCA, sendo substituída pela URBAN, do Grupo São José do Tocantins. E além de perder Anápolis, o Grupo Odilon Santos ainda viu a Rápido Araguaia, de Goiânia, ter quase 300 carros da sua frota apreendidos por falta de pagamento ao Banco Volkswagen.
Outras transferências e mudanças
Ocorreram trocas de linhas entre empresas do mesmo grupo; Real Expresso transferindo para a Rápido Federal, ou outras de grupos distintos, como a Nasser transferindo para a Rápido d’Oeste, e por aí vai.

O ano de 2015 será lembrado para sempre como o ano em que muita coisa mudou no transporte interestadual no Brasil. E a promessa é de que 2016 seja um ano de mudanças ainda mais intensas nesse setor, pois muita coisa ainda pode acontecer e muito do que hoje se conhece nesse setor pode mudar.

Afinal, ninguém imaginaria uma Itapemirim reduzida pela metade ou uma São Geraldo prestes a virar apenas lembrança. As coisas mudaram numa velocidade impressionante, a ponto de no futuro podermos dizer aos nossos filhos e netos que vimos gigantes do transporte brasileiro rodarem e sumirem diante de nossos olhos.

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