Muito além de dois e setenta

Fonte:
Portal Ônibus Paraibanos
Texto: Josivandro Avelar / Kristofer Oliveira
Fotos: Kristofer Olveira



Nesta
última semana a nova tarifa dos ônibus em João Pessoa passou a vigorar, com o
valor de R$ 2,70. De praxe, o movimento estudantil já promoveu várias
mobilizações para tentar barrar o aumento. E a população arca com mais um
aumento, resultado da inflação que assola o país. E o filme se repete desde
quando o transporte por ônibus na cidade foi oficializado.

A circunstância que envolveu o aumento da passagem, diga-se de passagem, todos
sabem que não passou de algo minimamente orquestrado entre o sindicato que
representa os operadores, os empresários e as demais autoridades do transporte
local. O aumento, que foi o segundo do ano, foi concedido após ameaça de greve
e na mesma semana – menos de 48 horas depois do reajuste dos salários dos
operadores, para ser preciso – o conselho tarifário se reuniu para defender o
reajuste da passagem, sob a alegação do aumento dos custos, sobretudo o impacto
na folha ao reajuste concedido. E o prefeito referendou um valor inferior ao
pedido pelos empresários – que era de R$ 2,76 –, mas que não deixou de ser
impactante para o atual momento em que vivemos.

Alguns
defendem o aumento e alegam que tudo aumenta, entretanto, só reclamam quando o
preço do ônibus aumenta e que o movimento estudantil só promove o estardalhaço
quando isso ocorre. Vejamos…o inhame está caro? Pode ser trocado por cará. A
carne encareceu? Tem o “bife do oião” para substituir. O pote do Kibon subiu
bastante? Vai de Zeca’s. A Coca está um absurdo? A Dore é uma opção… Ou seja,
tem-se a opção do boicote ou um substituto imediato, algo que não é possível
com o transporte público, sobretudo em uma cidade em que o ônibus é o principal
meio para esta finalidade – para não dizer o único em termos de transporte de
massa. Eis aí o motivo de maior indignação para quem não possui nenhum meio de
transporte próprio, pois o seu direito de ir e vir possui um impacto maior. João
Pessoa não foi uma cidade planejada para o futuro e vem pagando um preço caro
por isso. A bicicleta seria uma opção, mas as ciclofaixas e ciclovias
existentes na cidade só possui finalidade desportiva e o risco de andar nas
principais avenidas é alto.

E
justamente o principal meio de transporte público da cidade não vem bem, e
piora a cada dia. O grande trunfo e propaganda da AETC, tal como a Semob de vez
em quando se utiliza, é de que a frota da cidade é uma das mais novas do país.
Tudo bem que ônibus novo, moderno, de última geração é um dos atributos de um
sistema de transporte com qualidade, mas não é o seu principal, ainda mais
quando falamos numa capital de quase 800 mil habitantes sendo atendida por
pouco menos de 450 veículos, uma quantidade flagrantemente desproporcional se
comparada a outras capitais. A mobilidade da cidade, quantidade de ônibus em
determinadas linhas e o conforto dos usuários é o que vale, não adianta ter
ônibus novo se tudo isso é comprometido. Além do mais temos alguns agravantes:
o monopólio do transporte (com 4 empresas pertencentes à mesma família); a
transferência de veículos de determinadas empresas para sua matriz em Campina
Grande e filiais em Natal com pouco tempo de uso aqui, que funciona da seguinte
forma: tal empresa trouxe uma quantidade x de ônibus zeros em 2013, através de
acordo após o aumento da tarifa, mas eles ficam até o ano seguinte em João
Pessoa e são transferidos para suas empresas-irmãs em outras cidades, tendo
ainda veículos ano 2005, 2006 rodando; e a substituição de veículos trucados
(que são maiores) por mais curtos, o que causou grande impacto em linhas de
alta demanda, como no caso da linha 301, que teve três de seus trucados
substituídos por “tocos”, carros básicos de 38 passageiros. E tem mais: as
linhas 2300 e 5204 perderam seus únicos trucados, e agora no caso mais recente,
as linhas 1500 e 5100 perderam seus articulados para cobrir outras linhas. E
vale destacar a baixa de um trucado na linha 1519, substituído por um veículo
de menor capacidade, sendo o único “toco” a rodar nessa linha, conhecida por
ser uma das mais superlotadas de João Pessoa.
Enquanto
a população da cidade aumenta, principalmente nos bairros mais afastados do
centro, a quantidade de veículos na frota não acompanha a demanda. Não é
difícil passar muito tempo sem ter matérias oriundas dos bairros do Valentina e
Bairro das Indústrias nos telejornais, com a população revoltada mediante o
descaso do serviço. E quem vem passando pelo mesmo processo é o Colinas do Sul.
Sobrou para o Grotão e Funcionários que teve o seu serviço piorado após as
linhas 101 e 114 terem estendido o seu itinerário até o Colinas, e no caso da
segunda, ter passado por uma fusão com a linha 116 menos de 10 dias depois da
linha ter mudado de empresa. Para resolver um problema, a Semob acabou criando
outro. E nem mencionamos os diversos problemas que acontecem em corredor mesmo,
como os da Avenida 2 de Fevereiro, no Rangel e a Avenida Cruz das Armas, no
bairro de mesmo nome, que justamente por serem corredores, terminam recebendo
veículos lotados de outros bairros, não sobrando espaço para quem mora nesses
bairros poder arrumar um lugar nos horários de pico, anulando a falsa sensação
de variedade de linhas que neles existe. E olha que estamos falando de dois dos
maiores contingentes populacionais da Zona Oeste pessoense.

E
que tal ir ao Terminal de Integração de manhã cedo e acompanhar a demanda das
linhas 104, 201, 302, 401, 507, 510 e 601? Em alguns casos, é possível ver os
veículos saindo com gente ainda na escada dos veículos de tão superlotados que
se encontram. A situação só não é pior porque muitos possuem carros e motos.
Com
o modelo de transporte radial que temos desde os anos 70, não é difícil
presumir que tal sistema está esgotado, falido, obsoleto. Pode ter funcionado
por um tempo, mas no momento é um grande problema. Vai chegar um ponto que se
tal modelo continuar a vigorar, com o aumento populacional da cidade, é
inevitável a entrada de uma quantidade maior de ônibus. Com isso teremos uma
piora significativa no caótico trânsito da cidade. E consequentemente, o gasto
das empresas aumentará, sendo inevitável o reajuste da passagem. A população
continuará insatisfeita por ter que pagar caro e não ter um transporte de
qualidade. É justamente essa a engrenagem que estamos submetidos atualmente.
Por isso é necessário mais ação e menos politicagem e promessas vazias de quem
tem a atribuição de resolver tal problema. E não é algo que se resolve a curto
prazo.

O pleito de alguns usuários é até justo, em querer ônibus mais confortáveis com
ar condicionado. Sendo sensato, é algo inviável no momento, pois, de que
adiantaria um ônibus superlotado com esse recurso? Não tardaria de alguém com
calor abrir a janela e danificar o aparelho, como já ocorreu no antigo sistema
opcional que tínhamos. E se o veículo fosse do tipo com vidro colado, o
desconforto seria maior na superlotação. Em relação a veículos com motorização
mais potente, sendo central ou traseiro, para gerar um maior conforto ao
motorista também, a qualidade das ruas de João Pessoa não ajuda, com o
pavimento de péssima qualidade, constantes buracos e irregularidades que pioram
quando chove. E de que adiantaria se, além dos motivos elencados a pouco, tal
veículo ficar preso no engarrafamento? Como o custo operacional desses veículos
é superior ao que temos atualmente (tanto em manutenção e no consumo de
combustível), com certeza impactaria na tarifa.

Enfim,
para termos um transporte de qualidade que zele pelo conforto dos usuários, que
conquiste mais adeptos, fazendo com que deixem seus veículos em casa nos dias
úteis (fazendo com que o trânsito flua melhor), e que também seja bom para os
empresários (não sejamos hipócritas, vivemos dentro de um regime capitalista),
é necessário que ocorra uma remodelação do nosso sistema de transporte. Como
nada acontece isoladamente, para isso ocorrer é necessário a cidade melhorar
bastante sua infraestrutura. Com isso ônibus melhores virão e consigo a
satisfação dos usuários, após seus anseios serem correspondidos diariamente. E
nada disso ocorrerá da noite para o dia e não pode ser uma mera medida
paliativa, pois todas as fontes dessa ferramenta mais prática já foi bastante
consumida desde os anos 70. É aí que a força do movimento estudantil poderia
ajudar bastante, tal como de outros movimentos sociais, caso cobrassem constantemente
tais mudanças, e o movimento não se restringisse sazonalmente após o reajuste
de tarifas.

A
insatisfação do pessoense vai além dos R$ 2,70, o usuário não quer saber se a
frota vai ser renovada, quer saber de ser transportado dignamente. Entretanto,
ficar apenas na reclamação da tarifa aos operadores ou manifestando com
pichações e ameaça de invasão e depredação do bem público não vai resolver
nada. Ano que vem teremos eleições municipais, mas apenas votar não é
suficiente. O povo ainda não descobriu a força que possui.

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