Os sete infernos dos passageiros de ônibus do Grande Recife

Fonte:
Diário de Pernambuco
Texto: Larissa Rodrigues / Tânia Passos
Fotos: Divulgação



As dificuldades dos passageiros de ônibus da Região Metropolitana do Recife
(RMR) são tantas que é possível enumera-las no que poderia se chamar ‘lista do
desespero’. Na última semana, a população assistiu perplexa a mais um capítulo
trágico dessa rotina. Harlynton dos Santos, 20 anos, caiu do coletivo quando
tentava embarcar na linha Imip/Tancredo Neves, no Cais de Santa Rita. Teve o
mesmo destino de Camila Mirele Pires, 18, que quarenta dias antes viajava
próximo à porta do Barro/Macaxeira e foi arremessada para fora do coletivo.

Acidentes ou mortes anunciadas pela precariedade do sistema? Pode-se afirmar
que nunca mais vão acontecer? Passageiros dizem que não e justificam apontando
os tormentos que enfrentam diariamente. A reportagem do Diário foi às ruas e
comprovou, entre os inúmeros problemas dos ônibus, os sete maiores. Constam na
lista superlotação e paradas queimadas. Responsáveis pela gestão do sistema, o
Grande Recife Consórcio de Transportes e o Sindicato das Empresas de
Transportes de Passageiros (Urbana-PE) defendem a ampliação do número de
corredores exclusivos para o transporte público como forma de amenizar os
problemas desse inferno diário.

Superlotação
sem tempo de ter fim

O Recife já tem 30% a mais da frota de ônibus que precisaria para fazer as
mesmas viagens. O dado parece irreal para quem enfrenta a superlotação. São
dois milhões de usuários no sistema de 3 mil ônibus. O tempo que os coletivos
perdem no trânsito reflete no aumento do intervalo das viagens entre 30 a 40
minutos e consequentemente no número de passageiros acumulados nas paradas e
terminais. Sem espaço e encostado na porta, o pedreiro Samuel Lopes, 33 anos,
em pé no Barro/Macaxeira, resume em poucas palavras o cotidiano. “Todo dia é
essa bagunça”. Manter a regularidade no horário é uma necessidade ainda
distante de ser atingida.

“Todo mundo fala em priorizar o transporte público, mas nada é feito de fato”,
criticou o coordenador regional da Associação de Transporte Público (ANTP),
César Cavalcanti. Para os especialistas e os órgãos gestores não existe outra
equação. Somente na capital pernambucana a frota circulante ultrapassa um
milhão de veículos nas mesmas vias compartilhadas pelos ônibus. As vias
exclusivas podem ser contadas nos dedos: os corredores Norte/Sul e Leste/Oeste,
em obras, e com trechos mistos. E os 21,4km de faixa azul distribuídos na
Mascarenhas de Moraes, Herculano Bandeira, Domingos Ferreira e Rua Cosme Viana,
em Afogados. O plano de expansão inclui, até o fim  do ano, Avenida Recife
e Real da Torre.

No
calor e no aperto

A capital pernambucana é quente por natureza. Nos dias de verão, a temperatura
média é de 29 graus. No inverno, a sensação térmica reduz cerca de três graus.
Mas já houve um inverno quase “polar” – para a realidade do Nordeste – 
com inacreditáveis 15 graus, no ano de 1965, segundo a Agência Pernambucana de
Águas e Climas (Apac). Meio século depois, o calor só aumenta. Agora imagine
dentro de um ônibus lotado? “É uma rotina exaustiva. A pessoa já chega no
trabalho cansada, toda suada”, contou a educadora Valquíria Duarte, 42 anos,
que costuma pegar a linha Barro/Macaxeira.

A climatização do transporte público da RMR foi um dos itens mais polêmicos da
licitação do sistema. O primeiro edital, que previa ar-condicionado para todos
os ônibus, foi esvaziado. Nenhuma empresa se inscreveu. No segundo edital, o
governo reduziu a climatização para a frota do Sistema Estrutural Integrado
(SEI). Ou seja, para os ônibus que fizerem integração nos 25 terminais
previstos no sistema. Desses, quatro ainda estão em obras. Mas o fato é que a
climatização só chegou aos BRTs.

Atualmente 42 ônibus circulam refrigerados, ou seja, menos de 2% da frota. De
acordo com o Grande Recife Consórcio, somente com a segunda etapa da licitação,
sem previsão, será exigida a climatização dos ônibus do SEI.

O
desabrigo das paradas

Com quase seis mil paradas de ônibus na RMR e cinco tipos diferentes delas,
algumas sem tipo nenhum, o fato é que os abrigos para os usuários de ônibus
deixam muito a desejar. Há lugares onde um poste serve como indicativo de
parada. Mas até mesmo nos locais melhor estruturados, o desconforto é também
percebido. Em plena Avenida Conde da Boa Vista, um dos principais corredores de
tráfego, os abrigos são quase de “enfeite”. Não protegem nem do sol, nem da
chuva. “E quando chove, as cadeiras ficam encharcadas”, revelou o atendente de
telemarketing, Elias Pessoa Monteiro, 32 anos.

De acordo com órgão que gerencia o transporte público na RMR, as especificações
das paradas dependem dos espaços disponíveis. “Existem regras de acessibilidade
que não podem ser quebradas. Cada parada possui largura e comprimento diferente
e tudo vai depender do espaço disponível na calçada”, informou o Grande Recife.

Para quem usa os equipamentos sem calçada ou só com terra nos pés, as regras de
acessibilidade parecem desconectadas da realidade. Assim como o diagnóstico dos
abrigos. O Grande Recife Consórcio não soube informar o número de paradas sem
abrigo ou com abrigos quebrados. As denúncias podem ser feitas pelo
0800-081-0158, das 7h às 19h.
Deixados
para trás
Paradas
queimadas frustram e humilham quem depende de ônibus

A queima da parada talvez seja um dos piores tormentos do usuário do transporte
público. A sensação de ser deixado para trás, após uma espera quase sempre
longa, e, sem nenhum conforto, provoca uma frustração difícil de ser reparada
em razão de uma prática cada vez mais recorrente. Talvez por isso, seja um dos
itens de maior reclamação junto à Central de Atendimento ao Cliente do Grande
Recife Consórcio. De janeiro a novembro do ano passado foram registradas 2,6
mil queixas de queima de paradas.

Misturados ao tráfego misto, uma cena muito comum são os ônibus fazerem fila
dupla ou tripla, enquanto os usuários correm de um lado para outro para
tentarem ser vistos, mas quando percebem o ônibus já partiu. “Tenho duas opções
para voltar da Universidade Rural para casa, Casa Amarela/Cabugá e Dois
Irmãos/Rui Barbosa, mas os dois queimam parada”, lamentou o estudante Felipe
Wagner Silva, 26 anos.

A queima de parada nunca resultou em punições para os motoristas, que também
são pressionados a cumprir horário. De acordo com o Grande Recife, o usuário
deve entrar em contato pelo 0800.081.0158 e informar data, horário, local, nome
da linha, número de ordem do ônibus, sentido da viagem, além do ponto de
referência. “Com os dados é possível fazer fiscalização direcionada e autuar a
operadora.” Já a Urbana garante que o assunto é tema permanente nas campanhas
educativas e de formação do setor.

Insegurança
dentro ou fora dos ônibus?

Quem depende do transporte público a noite precisa de algumas técnicas de
segurança para escapar da violência urbana: desligar e guardar o celular em
locais não visíveis, não sair desacompanhado, não abrir carteira em público e
subir no primeiro ônibus se perceber risco de assalto. Mas às vezes o problema
pode ser dentro do ônibus. De acordo com a Secretaria de Defesa Social (SDS),
de janeiro a maio de 2014, foram registrados 290 assaltos a ônibus na RMR. Este
ano, no mesmo período, o número já chegou a 360 ocorrências.

A analista de logística Jéssyca Almeida, 22 anos, foi vítima de assalto na
linha Piedade. “Dois rapazes entraram e anunciaram o assalto. Só não levaram
meu celular porque estava escondido no bolso de trás da calça e no silencioso”,
contou. No entanto, para o professor de transporte público da UFPE Maurício
Andrade o estigma de que o ônibus é inseguro é mais um mito. “Nunca foi feita
uma pesquisa que mostre a incidência de assaltos dentro do ônibus comparando
com outros lugares. Tudo fica na base do achismo”, afirmou.

A Urbana-PE disse que desde 2007 a frota é equipada com câmeras. Um
levantamento feito pelo sindicato indica que houve redução de 65% no total de
assaltos após a instalação de câmeras. Outro indicativo, foi a redução do
dinheiro circulante nos veículos com o pagamento a partir da bilhetagem
eletrônica. Já o Grande Recife Consórcio ressaltou que está reforçando a
segurança nos terminais de maior demanda. O plano conta com reforço do efetivo
de PMs e circulação de viaturas nas imediações de paradas e terminais.

Até
o leitor digital engarrafa


Usuários reclamam que o equipamento falha e provoca filas no embarque

Quando o leitor biométrico chegou aos ônibus da RMR, no primeiro trimestre do
ano passado, a novidade foi vista como uma revolução contra fraudes no uso do
Cartão VEM. Bom para as empresas e também para o usuário, que passou a ter mais
segurança em caso de roubo ou extravio do cartão. O que os usuários não
contavam era que a leitura da digital provocasse engarrafamento na entrada do
coletivo e muitas reclamações e empurrões.

Segundo os usuários o equipamento demora para concluir a leitura digital e sem
a conclusão do processo o passageiro não consegue embarcar. A fila trava a
circulação antes da catraca. “Já aconteceu umas cinco vezes de o leitor não
funcionar comigo. Geralmente só pega da segunda vez que coloco o dedo”, contou
o estudante do Ginásio Pernambucano Fábio Roberto do Nascimento, 16. “Nunca
explicaram como usar. Ninguém sabe se tem que colocar o dedo e pressionar ou só
tocar”, relatou a estudante de Administração da UFRPE Yasmim Silva Meireles,
21.

De acordo com a Urbana-PE os leitores são equipamentos de última geração,
utilizados em várias cidades do Brasil e do mundo. O sindicato garante que os
passageiros foram orientados sobre o uso durante o cadastro. Além disso, os
cobradores receberam treinamento para orientar as pessoas. “Caso o usuário
encontre problemas deve procurar o posto de atendimento do VEM para atualizar
seu cadastro”, informou a Urbana.

Fiscais da cidadania tentam melhorar as relações entre os usuários e entre usuários e profissionais do setor
Gentileza
de menos


Falta de educação dos próprios usuários é um dos infernos dos passageiros

Na ânsia de chegar ao destino e devido a condições quase sempre desfavoráveis,
o dia a dia do transporte público é uma verdadeira selva, onde os fortes ou
mais “espertos” têm vez. O desrespeito ao próximo começa antes mesmo de entrar
no ônibus. As filas não são respeitadas e os mais frágeis ficam para trás. Sofrendo
de artrose e hérnia de disco a aposentada Maria da Conceição Lins da Silva, 57
anos, disse que já se machucou várias vezes tentando pegar o ônibus. “Eles (os
passageiros) não gostam porque eu tenho carteirinha de gratuidade e me
empurram.”

O desrespeito não termina aí. Dentro dos coletivos os exemplos de falta de
urbanidade se multiplicam. O lugar reservado ao idoso, gestante e cadeirante,
em geral é ocupado por outros passageiros. No ônibus lotado quem já pediu para
segurar os livros de quem fica em pé? A gentileza é um alívio para quem não tem
opção de descanso na viagem e custa muito pouco para quem faz.

A educação de menos é também sentida pelos passageiros obrigados a ouvir som
alto ao longo da viagem. Em 2012 foi aprovada uma lei na Alepe para coibir o
som nos transportes coletivos, mas a norma acabou não ‘pegando’ por causa da
dificuldade de fiscalização.

Tentando reduzir conflitos entre os próprios usuários e profissionais, a
Urbana-PE realizou pesquisa com motoristas e cobradores e identificou posturas
que contribuem para o inferno diário. Fiscais da cidadania foram contratados
para melhorar as relações. No mês passado, 60 deles passaram a atuar em dupla
em horários e linhas diferentes verificando o uso dos espaços, informando sobre
cuidados com a segurança no trajeto e incentivando o uso de fones de ouvido.

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