Você sabe o que é um busólogo?

Fonte:
Auto Esporte
Texto: Daniela Saragiotto
Fotos: Rafael Munhoz




O  pai acompanha o filho até o ponto do ônibus e espera, pacientemente.
Após mais de uma hora, ficam sabendo que o veículo da Viação ABC foi recolhido
à garagem. Só no dia seguinte conseguiram ver o Caio Millennium I passar,
exemplar único estreando na região. Isso mesmo, viram o ônibus passar, e não
embarcaram.

“Fiz
muito isso no passado, o que limita hoje é a falta de tempo”, lembra Adamo
Bazani, 36 anos, jornalista de profissão e busólogo por paixão. Busólogo?! Se a
palavra é novidade para você, saiba que eles são pessoas aficionadas por
ônibus, que se dedicam ao passatempo de estudar esses veículos e temas afins,
colecionando miniaturas, fotos, ou qualquer outra coisa que tenha relação com
os grandalhões do transporte coletivo. E, sim, ao contrário da maioria da
população, eles adoram se deslocar de ônibus, gostam do barulho de seus motores
e, se pudessem, passariam horas dentro das garagens que fazem sua manutenção
observando o trabalho.
 
Não
se sabe ao certo quantos busólogos há no Brasil, mas basta uma busca na
internet para ver que o hobby é mais comum do que se imagina. Bazani é apenas
um dos representantes do movimento. Natural de Santo André, município do ABC
paulista, ele conta que a paixão começou na infância, por influência do pai,
que é metalúrgico. “Aos quatro anos pegava sozinho um ônibus da viação
Padroeira do Brasil e ia até o ponto final, no bairro do Paraíso. Fazia isso
várias vezes ao dia e meu pai me incentivava, pois percebeu que eu gostava
demais”, lembra.
 
Os
tempos eram outros: os motoristas e cobradores da linha eram amigos da família
e cuidavam do menino. Nessa época também ganhou do pai a primeira miniatura de
ônibus, hoje em destaque em sua coleção de 260 peças, de diversos modelos e
tamanhos, que cuida como um tesouro pessoal.
 
O
tempo só fez o interesse pelos ônibus aumentar e, em certo momento, Bazani
conseguiu unir hobby e profissão. “Sofri um acidente de carro em 2009 e fiquei
três anos afastado do trabalho, na rádio CBN. Voltei fazendo matérias para a
seção ‘São Paulo Conta sua História’, entrevistando motoristas e cobradores.” A
repercussão foi excelente: “As pessoas se identificavam muito com os relatos,
histórias do desenvolvimento da cidade em cada personagem”.
 
Hoje
ele faz também a cobertura de transporte coletivo da cidade, o que lhe permite
conhecer as montadoras e suas novidades, além das garagens. “Já passei muitas
madrugadas nesses galpões. O que acontece dentro das garagens é um processo
quase industrial, é necessário muito trabalho para que um ônibus volte a operar
logo nas primeiras horas da madrugada”, diz Bazani, que mantém um blog
especializado chamado Ponto de Ônibus. “Esses veículos são parte do
desenvolvimento econômico das cidades e isso, mais a possibilidade de discutir
mobilidade urbana, são os aspectos que mais valorizo no hobby”, diz o
jornalista.
 

Adamo Bazani se divide entre o jornalismo e a paixão pelos ônibus e reuniu mais de 260 modelos em miniatura
Bazani
e outros especialistas mencionam Helio Luiz de Oliveira como a primeira pessoa
a receber o título de busólogo no Brasil. “Em 1986, eu trabalhava como
projetista na extinta Thamco, na época a única encarroçadora no estado de São
Paulo. Sabendo do meu interesse pelo tema, meus amigos e colegas de trabalho
Orcars Pipers e Jean Dierckx passaram a me chamar de Helio Busólogo, e o
apelido pegou”, lembra. Mais do que isso, o termo passou a definir todos os
especialistas e fanáticos por ônibus do Brasil. Sua paixão o levou até a mudar
de profissão, mas sem abandonar a paixão: desde 2003, Oliveira edita a revista
In Bus, uma das únicas dedicadas aos ônibus, além de vários blogs
especializados.
 
O
pioneiro da busologia conta que a obsessão pelo assunto também começou cedo. Em
1979, ainda na faculdade, fundou com alguns amigos o Clube do Design de Ônibus
(CDO), considerado o primeiro do tipo no País. “Passávamos os dias escrevendo
cartas para as 276 indústrias de ônibus existentes no mundo pedindo seus
catálogos impressos com informações. Minha carteira não tinha dinheiro, só
selos”, brinca. Muitos anos depois, ganhou de Quirino Grassi, um dos donos da empresa
pioneira de carrocerias para ônibus Grassi, um acervo que deixaria qualquer
busólogo maluco: cerca de 5 mil cromos com imagens de ônibus do mundo todo.
“Ele sabia do meu amor pelos ônibus quando me deu esse presente, que guardarei
para sempre”, diz.
 
Ponto de partida

Ponto de ônibus no bairro da Lapa é o único sobrevivente da década de 1960
O
bairro da Lapa, zona oeste da capital paulista, abriga um ponto de ônibus que é
considerado único sobrevivente desse tipo de abrigo da década de 1960.
Construído pela extinta Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC),
ele é amplo, feito de ferro e fixado na calçada com concreto. Localizado na
praça Coronel Cipriano de Morais, foi adotado pela comunidade e até ganhou de
artistas locais uma intervenção no teto com colagens e pinturas.

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