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1 ano do fim da Almeida: Crônica de uma morte anunciada‏

Fonte:
Portal Ônibus Paraibanos
Matéria / Texto: Josivandro Avelar
Fotos: Acervo Paraíba Bus Team


Em 24 de janeiro de 2014, uma greve de motoristas dá o golpe de misericórdia na empresa Almeida. No dia 29 de janeiro, ela é oficialmente descredenciada do sistema metropolitano de João Pessoa. Nos últimos 10 anos, a empresa caminhava a passos lentos para seu fechamento. Uma norma do DER foi a sentença capital.
Para entender o fim da Almeida, é necessário voltar 11 anos no tempo. Durante 30 anos, a Almeida fez dobradinha com a Wilson no transporte de Bayeux. Depois, surgiu a Das Graças, pluralizando as operações do transporte da cidade. Cada uma reagiu à sua maneira às crises geradas pela diminuição de receita e concorrência com os alternativos: a Wilson retirava os carros mais velhos da maneira que podia, comprando ônibus usados. A Das Graças conservou suas três unidades adquiridas nos anos 2000 da Vitória de Caucaia-CE. A Almeida não conseguiu nem uma coisa, nem outra.
Anos 1980 e 1990: Os tempos áureos da Almeida
A Almeida operava em Bayeux há cerca de 40 anos. Durante esse tempo conseguiu ter uma frota em boas condições, como mostram as imagens do passado.
Era uma época em que as empresas tinham uma saúde financeira mais segura, apesar das crises financeiras que o país enfrentava naquele tempo. Nada parecia assustar as empresas de Bayeux naquela época. Além delas, a Rodoviária Santa Rita (atual SIM Transporte) também mantinha renovações de frota no mais alto nível.
No início dos anos 1990, eram frequentes as renovações com os Marcopolo Torino LN sob o chassi OF-1318 da Mercedes-Benz. Em 1993 chegavam Scanias F113HL, também sob a carroceria Marcopolo Torino LN. Entre 1996 e 1998, a Almeida, junto com a Wilson, fazem renovações expressivas com a carroceria Svelto da Comil, nos chassis
OF-1620 e OF-1721 E2. Eram tempos que chegavam carros dos modelos 1995 e 1998.
As coisas começariam a mudar na segunda metade dos anos 2000.
Anos 2000: A última compra e o início do fim

A partir do início dos anos 2000, começa a explosão dos alternativos. As empresas já começam a sentir o impacto da concorrência sobre as suas finanças. Dentre as três empresas de Bayeux, a Almeida foi a que mais sentiu o golpe.

A frota da Almeida adquirida antes de 2001 ficaria com ela até seu fim. A última compra realizada pela empresa foi de um carro zero quilômetro, o 56.07, Comil Svelto 2000 sob chassi Volkswagen 17-210 OD. A compra se deu em 2003. Era o único ônibus adaptado para cadeirantes da empresa.

Para tentar mudar a imagem de uma empresa que parecia ter sentido o impacto da crise mais que as demais, a empresa lança uma nova pintura a partir desse ônibus. Mas ela não chegaria a ser aplicada na frota toda; só dois ônibus receberam o novo layout, e mais de dez anos depois.

A partir daí, mais nada entrou na frota da Almeida. Nem muito menos carro usado, coisa que seria lógica para uma empresa que procura manter a frota renovada mesmo em tempos de crise. Motores batidos, chapas aparentes e carros parados por falta de peças começaram a ser coisas frequentes na frota da Almeida.

Era uma situação de dar dó para uns, e gerar revolta para outros. Entre os quais, os passageiros, que viam a frota da Almeida se deteriorar ano após ano. Carros similares na frota da Wilson ainda rodavam inteiros.
A situação de sucateamento chegou até na TPU, empresa que operava as linhas internas de Bayeux e que era dividida entre Wilson e Almeida. Ambas as empresas mantinham carros com até 20 anos de uso na TPU, mas a Almeida se superava. Enquanto a Wilson possuía veículos mais resistentes e conservados, a Almeida tinha carros em péssimo estado de conservação.
A Almeida logo saiu da TPU, deixando a operação exclusivamente com a Wilson. A empresa ainda tentou se recuperar, mas repintando dois dos ônibus com o layout do 56.07: os carros 5601 e 5609.
2014: O fim da Almeida
Em novembro de 2013, como resposta ao acidente de setembro envolvendo um ônibus da Rodoviária Santa Rita, o DER baixou uma portaria determinando idade média mínima de 10 anos para os ônibus que rodam no transporte intermunicipal, ou seja, renovação de frota. Caso as empresas não cumprissem as normas determinadas pelo órgão estadual, seriam descredenciadas.
As empresas de Bayeux logo se organizaram para poder sobreviver: a Wilson mudou de nome para Metro Transportes e adquiriu cerca de 12 ônibus seminovos. A pequena Das Graças trocou dois de seus três ônibus, também unidades seminovas. A Almeida não fez nada.
O prazo determinado pela empresa foi postergado três vezes, até chegar a 29 de janeiro de 2014. A Metro Transportes, antiga Wilson, havia conseguido retirar quase todos seus carros com mais de 10 anos de uso da frota. A Das Graças
apresentou as notas de compra de dois ônibus seminovos, que começariam a rodar um pouco mais tarde. Mas já não havia expectativa nenhuma que a Almeida fizesse o mesmo. A empresa caminhava para o fim.
O fim chegou bem antes: no dia 24 de janeiro de 2014, os motoristas da empresa deflagraram greve, organizada pelo Sindicato dos Motoristas. A empresa não podia renovar a frota, nem muito menos pagar o salário dos motoristas, que pelo atraso de salários, paralisaram as atividades. Assim terminava a agonia da Empresa Almeida.
Apesar de não estar mais rodando desde essa data, no dia 29, último dia do prazo determinado pelo DER para a adequação da frota à idade média de 10 anos, a Empresa Almeida encerra definitivamente suas atividades. Os funcionários foram remanejados para a Metro Transportes, bem como as linhas.
Diante da situação, a Metro se vê obrigada a reativar carros mais antigos da antiga Wilson, uma vez que praticamente nada poderia ser aproveitado da Almeida. 95% dos ônibus estavam sem condições de uso para transporte coletivo.
Pouco tempo depois, a Metro adquire mais 15 veículos – oriundos da extinta Auto Viação Santa Cruz de Jaboatão dos Guararapes-PE – para compensar o aumento de vagas gerado pela absorção da demanda da Almeida.
Um ano depois do fim melancólico
Empresas como a Roger, TransParaíba, Gaivota, entre tantas, encerraram suas operações deixando saudade, pois saíram de cena com suas frotas inteiras e aproveitadas pelas suas sucessoras. Saber sair de cena é um modo de fazer a marca ser lembrada mesmo depois de seu final.
O que não foi o caso da Almeida. Nos últimos 10 anos, foi morrendo lentamente, encerrando suas atividades de uma maneira melancólica. O suficiente para não deixar saudade em quem dependia das linhas dela.

A Metro Transportes absorveu funcionários e linhas, as quais ela já operava como Wilson, mas de modo compartilhado com a Almeida. A Das Graças conseguiu sobreviver e hoje opera com dois Vip I ano 2007, além de manter na reserva um Torino GV.

Saber lidar com a concorrência do transporte alternativo é difícil. Saber lidar com a crise é uma maestria. A Almeida sucumbiu a tudo isso. E fica o aprendizado de como saber lidar com crises de toda a sorte.
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