Trabalhadores do transporte coletivo e as últimas greves em João Pessoa

Fonte:
Portal Ônibus Paraibanos

Matéria / Texto: Enver José / JC Barboza

Fotos: Acervo histórico Paraíba Bus Team

Desde abril de 1996 que não aconteciam greves de motoristas e cobradores em João Pessoa. Recentemente tivemos uma que durou 3 dias e existe a ameaça de outra em Campina Grande. Vamos conhecer um pouco das greves que aconteceram no período compreendido entre 1988 e 1996.

Para que as pessoas se locomovam utilizando o
transporte coletivo por ônibus, é necessário que pessoas trabalhem,
transportando a população nas diversas localidades da cidade. O motorista de
ônibus, apesar de não criar um produto com o seu trabalho, ele gera um serviço
que produz lucro para o empresário capitalista.
Motoristas desempenham o papel mais fundamental,
sem o seu trabalho “o ônibus não sai do lugar”. Este deve ter o cuidado de
transportar a população, priorizando a segurança dos usuários. Em João Pessoa,
assim como em toda cidade do país, o trabalho do motorista garante a existência
dos demais trabalhos da população. A condução do ônibus faz com que diversas
atividades da cidade (de serviços e comércio) existam.

Outros trabalhadores que fazem com que o transporte
coletivo funcione também existem. A segunda categoria importante para o
funcionamento do sistema de transporte coletivo é o cobrador. Este desempenha
um papel “menos importante” para o usuário do transporte coletivo, mas fundamental
para as empresas de ônibus, pois sem a existência do cobrador, os empresários
do transporte coletivo não arrecadam dinheiro para lucro e manutenção do
sistema. Para o usuário, a categoria cobrador é “pouco fundamental”, pois este apenas
cobra o valor da tarifa de ônibus, exigindo do usuário um preço para a
utilização do serviço¹.

O cobrador faz um serviço “desagradável”, pois a
cobrança gera “insatisfação” para usuários do transporte, principalmente para
os mais pobres. Isto não significa que o trabalho do cobrador seja menor ou que
isto de certa forma justifique a enorme discrepância salarial entre as duas
categorias², já que como ser humano a garantia de bons salários é
fundamental para uma vida confortável. Porém, o fato é que a existência
deste trabalho apresenta uma visão acerca do transporte, visto como uma
“mercadoria” e não como uma necessidade básica. Talvez, o trabalho do cobrador
pode ser encarado desta maneira, pela condição atual do sistema de transporte,
onde empresas privadas de ônibus arrecadam para além da manutenção dos
deslocamentos populacionais, garantindo lucros onde problemas são identificados
como a superlotação, principalmente nos horário de pico, e um elevado tempo de
espera em pontos de ônibus.

Além dos motoristas e cobradores, outros
trabalhadores também fazem com que o sistema de transporte funcione. São os
fiscais tanto das empresas de ônibus que regulam os horários do trajeto como
aqueles que trabalham em órgãos municipais fiscalizadores (pertencente ao
Estado)³,assim também como aqueles que estão na direção das empresas.

Em relação à superlotação, observando
constantemente o funcionamento do transporte coletivo, os usuários reclamam com
o motorista da superlotação do transporte nos horários de pico.
Entretanto, os motoristas não recusam em parar nos pontos de ônibus, pois
receiam de levar reclamações das empresas de coletivo.
1 – Com a implementação da catraca eletrônica no
ano de 2006 em João Pessoa o trabalho do cobrador foi simplificado. Porém,
longe de ter por objetivo facilitar o trabalho do cobrador, este reduziu a
quantidade de estudantes de 41% (2006) para 18% (2010) (Superintendência de
Transporte e Trânsito – STtrans 2010), gerando desta forma uma maior
lucratividade para empresário do transporte. Além do mais, o emprego do cobrador
fica ameaçado com o bilhete eletrônico, visto que em algumas cidade como
Cabedelo -PB o emprego do cobrador é acumulado pelo motoristas, sem ocorrer uma
aumento salarial no último.
2 – A diferença entre o salário de cobrador e
motorista é quase o dobro. Enquanto o motorista recebe cerca de R$1.200 o
cobrador ganha cerca de R$ 600 (STtrans, 2010).
3 – Atualmente existe a Superintendência de
Transporte e Trânsito (Semob), no final da década de 1980 e começo de 1990 o
órgão fiscalizador era a Superintendência de Transporte Púbico (STP) e posteriormente STTrans. Esta
mudança no órgão foi realizada, porque a questão do transporte começou a ser
observada de forma mais integrada, onde consequentemente houve a
municipalização de algumas ações que antes eram de responsabilidade do governo estadual.

A questão é que assim como o cobrador, o motorista
muitas vezes é visto como responsável pela situação do transporte coletivo,
entretanto, fatores problemáticos do sistema só podem ser resolvido pela
mudança de concepção na direção das empresas. Pois problemas, a exemplo, de
tempo de espera na parada de ônibus e a superlotação, só podem
ser solucionados com a circulação de mais ônibus nos trajetos. Desta
maneira, o poder de decisão está para além de motoristas e cobradores.

Como o poder de decisão para melhoria do transporte
coletivo se encontra na conjuntura atual, para além da vontade destes
trabalhadores, também não seria diferente em relação aos seus salários. Entre
1988 e 1996 os motoristas e cobradores reivindicaram constantemente a melhoria
salarial, além de também travar lutas a nível nacional, para isso estes
trabalhadores utilizavam a sua maior arma: a greve.

A circulação de pessoas pela cidade era afetada, a
greve é uma arma poderosa contra as empresas privadas de transporte coletivo na
luta por melhorias salariais. Sem trabalhadores o transporte não funciona e
consequentemente afeta o comercio e demais atividades da cidade.
Poucos clientes, e falta de funcionários. Esse foi
o resultado nas lojas comerciais de João Pessoa, causado com a greve dos
motoristas de coletivos deflagrada anteontem. Segundo os gerentes de
algumas lojas do centro da cidade, o movimento teve uma redução de 60 por
cento. (A União, 17 de janeiro de 1988)

Entretanto, a greve não era apenas utilizada como
forma de manifestação contra os baixos salários, mas também como um
instrumento de luta contra injustiças sociais e planos governamentais. Adesões
a greves nacionais realizadas pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) contra
Plano Verão no governo Sarney em 1989, Plano Collor II em 1991 e reforma
da previdência no governo de Fernando Henrique Cardoso em 1996, foram
exemplos de lutas travadas pelos operadores do transporte coletivo.

O quadro 2 apresenta a ocorrência de greves, além
de paralisações realizadas pelos trabalhadores do transporte.

No período de nove (9) anos, entre 1988 e 1996
foram 12 (doze) greves realizadas pelos trabalhadores do transporte
reivindicando aumento salarial, 4 (quatro) greves com adesão a nível nacional e
2 (duas) paralisações, sendo uma em advertência aos empresários do transporte
por melhores salários e outra contra a onda de violência sob os motoristas e cobradores
de ônibus.

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