Novas tecnologias e transportes inteligentes no século 21

Fonte: The City Fix Brasil

Matéria / Texto: Marcelo Blumenfeld

Fotos: Divulgação 


 
Como
as informações digitalizadas nos transportes podem contribuir para um melhor
planejamento, e como a combinação delas com tecnologias mobile podem
revolucionar a interação das pessoas com os sistemas de transporte. Apertem os
cintos, o texto é uma viagem ao futuro que já vivemos. Não tenha medo se
parecer ficção, o final da história é feliz!

Todas
as manhãs, milhões de pessoas embarcam em ônibus e trens em São Paulo apenas
com o toque de um cartão no leitor. Ao mesmo tempo, passageiros em Bogotá, Nova
York, Londres, Lagos, Bangkok, Kuala Lumpur e outras centenas de cidades fazem
o mesmo. Tecnologia recente, os Smart Cards (como o Bilhete Único em São Paulo)
podem ser encontrados ao redor do mundo e são um ótimo exemplo de como a
tecnologia pode mudar a maneira como nos deslocamos. No entanto, mesmo que a
tecnologia tenha aumentado a utilidade dos sistemas, ainda resistimos a
utilizá-la na interação com as nossas vidas. Certamente, os transportes estão
mais rápidos e automatizados, mas não mais inteligentes. São ainda reativos
como ferramentas analógicas em uma era digital. Isso porque, embora tenhamos
evoluído os produtos, não atualizamos os sistemas e serviços.
Smart
Cards são cartões magnéticos em que os usuários compram créditos e são cobrados
automaticamente de acordo com suas viagens. Os benefícios são diversos, como a
facilidade de não usar dinheiro a cada viagem, além de contribuírem para
embarques mais rápidos e esperas mais curtas. Pense na eficiência trazida por eles.
Se cada passageiro deixa de gastar 30 segundos no embarque ao automatizar o
pagamento, uma cidade como a de São Paulo economiza mais de duas mil horas nos
transportes por dia! Exemplos como esse mostram como novas tecnologias podem
aumentar a eficiência dos sistemas, melhorando o serviço oferecido aos
usuários, que por sua vez ganham horas para dedicar a outras atividades.
Para
nós, planejadores, outro benefício é que a digitalização dessas informações
gera uma quantidade incrível de dados sobre cada usuário e suas rotas e
horários, o que contribui para modelos mais precisos e um planejamento proativo
em tempo real. Como cada cartão é único e identificado por um código, é
possível analisar cada um separadamente, ao invés de trabalhar com médias e picos.
Saberemos os trajetos e horários de um cartão, assim como os meios escolhidos e
média de compras em créditos, além de outras diversas informações. Com isso,
poderemos planejar de forma cada vez melhor e preparar os sistemas de acordo
com a demanda.
 
Simultaneamente,
outros avanços tecnológicos proporcionarão, em alguns anos, o que especialistas
chamam de um paradigma de conectividade ubíqua. Este nome grande e complicado
simplesmente quer dizer que é uma era onde a conexão com a internet está
disponível em qualquer lugar, a qualquer hora, através de qualquer dispositivo
que interaja com humanos. Por exemplo, a conexão 4G, entrando no mercado neste
ano, já garante navegação a mais de 100Mbits/s, dez vezes mais rápida que uma
conexão média domiciliar. Em alguns anos, as redes 5G, já em projeto em alguns
países, poderão acelerar essa velocidade em até 80 vezes. Conexões assim
rápidas em smartphones, que já possuem capacidade de processamento similares a
dos melhores computadores, fazem dos aparelhos móveis dispositivos potentes e
ilimitados na interação com os sistemas através da internet. A conta é simples.
Quanto mais informações em tempo real podemos ter através dos nossos meios de
comunicação, melhores serão nossas escolhas. E isso já acontece hoje em dia,
sem que sequer notemos.
O
aplicativo Waze é um perfeito exemplo do valor da
informação em tempo real. O app funciona como um roteador GPS, similarmente ao
Google Maps, indicando direções no mapa através da sua posição atual. Porém, a
sacada do Waze é a possibilidade de enviar informações sobre o trânsito, que
serão repassadas a todos os outros usuários conectados. Desde pontos de
lentidão até acidentes, radares, etc, o Waze torna-se um mapa colaborativo para
o qual os motoristas enviam e do qual recebem informações sobre o trânsito em
tempo real, e recalculam suas rotas para maior eficiência. Os congestionamentos
se espalham por rotas alternativas, e a economia de tempo é generalizada para
todos no sistema.
 
Até
aí, mil maravilhas. Mas o que isso tem a ver com os Smart Cards? Tudo. Assim
como o Waze transforma o GPS em um roteador inteligente e proativo em tempo
real (calculando e indicando rotas alternativas), os transportes públicos podem
ser tão ou mais inteligentes. Hipoteticamente, vamos chamar nosso personagem de
João, que mora em São Paulo. Pelas informações coletadas de seu Bilhete Único,
sabemos que em dias úteis ele embarca na estação Brás da Linha 3-Vermelha entre
6:15 e 6:23 todas as manhãs, troca para a Linha 1-Azul na Sé 7 minutos depois e
desembarca na estação Paraíso entre 6:35 e 6:45 diariamente. Sabemos também
que, às terças e quintas, João pega um ônibus para a Barra Funda no final da
tarde, onde depois pega o metrô de volta.
Para
os planejadores, esta é a vantagem de ticketagem digitalizada: nós aprendemos
sobre cada um dos usuários para os quais planejamos. E com isso podemos nos
antecipar e pessoalmente interagir com cada usuário de maneira personalizada,
facilitando as viagens ou até mesmo incentivando escolhas sustentáveis.
Principalmente quando se envolve um smartphone e um aplicativo dedicado. Por
exemplo, se a Linha 3-Vermelha opera com velocidade reduzida, podemos avisar
João imediatamente, de modo que ele embarque um pouco mais cedo para não se
atrasar. Ou então, se há algum acidente na via em seu caminho para a Barra
Funda, podemos sugerir rotas e serviços alternativos que o levarão ao seu
destino mais rapidamente. Da mesma forma, podemos beneficiar João por suas
viagens de bicicleta. Se ele usar o Bike Sampa, podemos lhe dar créditos para
as próximas viagens, ou oferecer-lhe um café em algum estabelecimento
credenciado perto da estação Paraíso. Tudo através de seu mobile app integrado com o seu
Bilhete Único.
A
integração de bancos de dados com a comunicação por tecnologias mobile é virtualmente ilimitada.
Como cada usuário tende a ter um único cartão, eles funcionam como um RG no
mundo virtual, contanto apenas com informações seguras que não ofereçam riscos
à sua segurança. Com isto, os sistemas de transportes podem se relacionar
individualmente com cada usuário, agindo proativamente na comunicação a partir
dos dados coletados das viagens anteriores. É um sistema que torna-se cada vez
mais inteligente e mais eficiente a cada trajeto feito. Assim, na próxima vez
que a Linha 3-Vermelha estiver saturada ou lenta, seu aplicativo pode oferecer
alternativas que o levem à estação Paraíso para que não perca seus horários.
 
Essa
história, na realidade, não é ficção científica. Ela já é realidade, e a tecnologia
é usada por diversos serviços em outras atividades comerciais, conectando
bilhões de usuários com smartphones conectados à internet. A história de João,
por sua vez, também não é tão hipotética quanto parece. Ela é uma ilustração de
um projeto que a AHEAD fez com a JMP Consultants para a cidade de York, na
Inglaterra. É um projeto já em andamento, cujos perfis virtuais e Smart Cards
já estão em uso, e aplicativos mobile
já integrados no sistema.
Incorporar
novas tecnologias digitais ao planejamento abre novos horizontes para a
capacidade dos sistemas de transportes de serem mais inteligentes, proativos e
personalizados sem grandes construções bilionárias. Não apenas melhoramos os
serviços, como também a interação dos transportes com as atividades diárias de
cada usuário. Portanto, com investimentos infinitamente menores do que em
grandiosas infraestruturas, podemos usar as informações de nossos usuários de
forma a servi-los de maneira mais eficiente e individual, transformando os
transportes de meras ferramentas em interessantes facilitadores das atividades
do dia a dia.

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