BRT do Rio: um sistema de transporte que já nasceu com problemas

Fonte: Jornal do Brasil

Foto: JC Barboza

O BRT do Rio de Janeiro
acumula, desde que foi implementado, uma impressionante sequência de acidentes.
Colisões e atropelamentos fazem parte de uma triste rotina e, para
especialistas, não faltam razões para isso. Eles alertam que este tipo de modal
deve seguir gerando cada vez mais transtornos, principalmente por causa da
ausência de planejamento e integração com os outros meios de transporte, da
falta de treinamento dos motoristas e do mau hábito dos brasileiros de não
respeitarem as sinalizações.

Somente nesta semana,
ocorreram dois acidentes envolvendo esse sistema. Na manhã de quinta-feira
(25), um caminhão bateu em um ônibus BRT na saída do Túnel da Grota Funda, na
Avenida das Américas, na zona oeste do Rio. O caminhão, que transportava
papelão, acabou tombando, e 32 passageiros sofreram lesões leves. Já na última
segunda-feira (24), três crianças foram atropeladas por um ônibus BRT, na
estrada do Mato Alto, também na zona oeste. Érica Macedo dos Santos, de 6 anos,
Melyssa Farias Areis e Mariana Ferreira Augusto, ambas com 11 anos morreram, e
outros quatro ficaram feridos.
Para Orlando Alves dos
Santos Jr., professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional
(IPPUR) da UFRJ e pesquisador da Rede Observatório das Metrópoles, não houve
uma preocupação no projeto do BRT em oferecer integração com os pedestres e com
outros modelos de transporte, como carros e outros ônibus.
“Se analisarmos os
acidentes envolvendo BRT, desde o início de sua implementação, veremos que eles
ocorreram com modais que compartilham o mesmo espaço público que o BRT. A
ausência de planejamento de integração desse modal com os outros acaba gerando
acidentes, colisões violentas entre esses veículos, que não estão convivendo de
forma pacífica. Vale ressaltar também que a ineficiência desse planejamento quase
sempre está atrelada ao fato de não incluírem o veículo a pé na análise, meio
de locomoção muito utilizado pelos brasileiros”, explica o pesquisador.
De acordo com uma pesquisa
de campo no BRT Alvorada, feita pelo professor da UFRJ, o projeto já nasceu
obsoleto. “Eu tive a oportunidade de viajar de BRT e constatei que o
sistema não tinha capacidade de acomodar a demanda de passageiros, além de ser
mal planejado. O ponto de ônibus, que possibilita a integração do ônibus com
BRT, não coincide com a travessia, por isso os pedestres atravessam fora da
faixa; os bicicletários não dão vazão para o número de bicicletas, sendo assim,
o outro lado da rua também se tornou um bicicletário improvisado; há ausência
de segurança, pois as portas do ônibus não se fecham, por causa da
superlotação”, contou Orlando dos Santos Jr.
Já para o engenheiro de
Transportes e Mobilidade da Uerj, Alexandre Rojas, outro fator que pode
contribuir para os acidentes, principalmente os atropelamentos, é a diferença
deste veículo articulado, ou seja, mais longo, do ônibus rodoviário comum.
“Os ônibus mais articulados são usados em trajetos maiores, contudo, ele
deve ser dirigido como se fosse uma carreta, pois seu sistema de freios não é
igual ao de um ônibus comum. Ele atua primeiro na parte de trás e depois vem em
cascata para frente. O tempo de parada dele é mais longo, ou seja, demora mais
para frear do que um ônibus comum. Se por acaso alguém atravessar na frente
desse ônibus, o motorista pode não conseguir pará-lo totalmente a tempo”,
afirma.
Porém, Rojas também cita a
falta de obediência dos pedestres e motoristas às leis de trânsito como um
fator que contribui para os constantes acidentes. “Os cariocas estão
acostumados a atravessar fora da faixa e não esperar o sinal vermelho. Quem
obedece, na verdade, é que está errado. Hoje, por exemplo, eu estava na Rua
Visconde de Pirajá, em Ipanema [zona sul do Rio], quando um homem decidiu
atravessar sem se importar com o fato do sinal estar livre para os carros.
Consequência: um carro foi obrigado a dar uma freada brusca para não
atropelá-lo e o homem ainda xingou o motorista”, contou.
Segundo o engenheiro de
transportes, o que deveria e pode ser feito para amenizar essa situação são
campanhas educativas, a fim de conscientizar a população sobre as leis de
trânsito e sua importância. “O governo deveria investir no marketing de
trânsito, colocando placas mais chamativas e chamadas de alerta, avisando que
naquele trajeto há BRT, já que as convencionais não estão funcionando. Seria
interessante também se existissem atividades lúdicas com as crianças para
ensiná-las sobre o comportamento do pedestre no trânsito, porque se a criança
for educada, ela transmite isso para os pais. Afinal, o código de trânsito
prevê uma verba para educação”, argumenta Rojas.
Segundo o professor de
Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, Paulo Cezar Ribeiro, a ausência de
guardas municipais no tráfego, necessário para fiscalizar o comportamento de
pedestres e motoristas, facilitaria o fim das constantes infrações no trânsito.
“Uma coisa que eu falo há mais de dez anos é que as pessoas não respeitam
a sinalização. Se dermos uma volta pela cidade veremos uma quantidade enorme de
motoristas infratores, no quesito comportamento, já que não há patrulhamento
para fiscalizá-los. Só há radar parar multar por excesso de velocidade”,
afirma.
Ribeiro também critica a
ausência de um planejamento adequado na infraestrutura do sistema BRT e da
integração com outros modais. “Como era o meio de transporte mais barato,
rápido e fácil, simplesmente colocaram uma faixa exclusiva na Avenida das
Américas para esse modal, construíram uma estação bem simples, e pronto. Não
houve planejamento, logo não integrou-se nada”, censurou o especialista.

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