Aumento da passagem e operadoras privadas do transporte coletivo em João Pessoa – 1988 a 1996

Fonte: Portal Ônibus Paraibanos

Matéria / Texto: Enver José

Fotos: Acervo Paraíba Bus Team

Para falarmos das empresas
de transporte coletivo privado, é imprescindível falarmos da operacionalização
e dos aumentos dos valores das passagens ocorridos no período de 1988 a 1996.
Estes aumentos fizeram com que a discussão sobre o transporte coletivo se
manifestasse a todo o momento na cidade de João Pessoa, é o que nos mostram os
jornais da época.

A elevação
do preço da passagem de ônibus, como já apresentado anteriormente, não foi um
fato isolado na cidade, mas uma consequência da situação econômica que o país
enfrentava. Ao analisarmos a Tabela 6 e as Tabelas de 7 à 9, veremos que a
passagem de ônibus assim como a inflação da época possuíam uma íntima relação.

Alguns aumentos da passagem
não foram identificados em certos meses no período de 1988 à 1996. Existiram
publicações diárias que os jornais dos acervos pesquisados não possuíam. Fica a
dúvida se ocorreram mais aumentos da passagem do que apresentado. Porém, o
importante é ressaltar a grande quantidade de aumentos da tarifa de ônibus.
Na tabela 6 é possível
perceber o comportamento da inflação na metade ao final dos anos de 1980. Nos
anos de 1988 e 1989, a inflação anual chegou a 933,60% e 1764,86%
respectivamente. No ano de 1988 os aumentos da passagem ocorreram até o mês de
agosto, pois neste mês ocorreu uma grande manifestação contra o aumento da
passagem que resultou inclusive na criação do Sistema Estadual de Transporte
Urbano S/A (SETUSA) em outubro de 1988 (tabela 7).

A passagem de ônibus de
agosto de 1988 até Dezembro de 1989 permaneceu congelada no valor de 36
cruzados. A partir de Janeiro de 1989 começou a existir uma diferença entre os
preços cobrados pelas operadoras privadas e pelo do Sistema Estadual de
Transporte Urbano (SETUSA) (tabela 7 e 8). Desde Janeiro de 1989 até setembro
de 1989, o SETUSA manteve um percentual de diferença em torno de 50%. Com o fim
do financiamento estadual, o SETUSA em setembro de 1989, começou a cobrar
tarifas mais próximas das empresas privadas, mas permanecendo com o Passe Livre
para os estudantes no transporte coletivo (tabela 8).

Com o fim do subsídio em
setembro de 1989, a passagem de ônibus do SETUSA iguala-se ao preço das
empresas de transporte privado. Apenas em agosto de 1990 é que a passagem de
ônibus volta a ter uma diferença, porém com pequena margem (tabela 9).

É notório,
a partir da observação da tabela 9 e de outras tabelas, o impacto da inflação
nos aumentos da passagem. No início de 1990, por exemplo, a passagem custava
2,30 cruzeiros, no final do ano esta era Cr$ 30 (operadoras privadas),
significando um aumento em cerca de 1200% no preço da passagem.

No mês de janeiro de 1991,
não foi identificado nenhuma diferença entre a tarifa de ônibus das empresas
privadas e o SETUSA. Apenas em 1992 é que as tarifas de ônibus do SETUSA
voltaram a possuir valores distintos (tabela 10 e 11).

O ano de 1992 e 1993 (tabela
11 e 12), por exemplo, foram os anos em que todos os meses a tarifa de ônibus
foi elevada. No período de 1988 a Junho de 1994, constantemente a tarifa de
ônibus foi elevada. Foram vários os planos econômicos com mudanças da moeda brasileira,
neste período existiram quatro tipos de moedas diferentes (Cruzado, Cruzado
Novo, Cruzeiro Real, Real). Apenas com o advento do Plano Real (1994), quando a
inflação obteve sua estagnação mensal, o preço da passagem passou a ser
reajustado anualmente.

Em alguns meses foi possível
identificar que as diferenças existentes nos preços das operadoras privadas de
transporte privado e a estatal SETUSA não ocorriam, possuindo meses em que o
preço cobrado no SETUSA era o mesmo cobrado pelas operadoras privadas. Entretanto,
a inexistência dessa diferença, pode ter ocorrido porque o Jornal “A União” não
apresentou uma diferença de preço ou os jornais diários pesquisados nos acervos
não apresentaram especificamente um aumento na passagem.

A partir de Junho de 1994
ocorre a mudança de moeda através do Plano Real com a urvização do Cruzeiro. É
possível observar que a partir de Junho de 1994 a passagem de ônibus, começa a
ser reajustada anualmente, pondo um fim na era inflacionária (tabela 13).

As justificativas para os
aumentos do valor da passagem de ônibus foram sempre a elevação dos insumos
(combustível, pneu, carroceria de ônibus, etc). Devido principalmente a crise
inflacionária, os empresários do transporte coletivo reivindicavam os aumentos,
tentando manter sua taxa de lucro.
Os serviços de transportes
coletivos, em todo o país, estão péssimos e caríssimos, e os empresários
exigindo constantes reajustes para acompanhar os preços dos combustíveis,
peças, acessórios e outras despesas. É bem verdade que o negócio do transporte
é um dos melhores, dos
mais lucrativos, tanto que tem sido, em toda parte, responsável por
enriquecimentos rápidos, etc e tal.

Entretanto, tarifas absurdas
são resultantes da política econômica suicida que desvalorizou a moeda
nacional, a ponto de, praticamente, não haver mais no Brasil essa unidade,
dinheiro, que representa valor, para as operações de troca. (Jornal “A União”,
30 de novembro de 1989)
Entretanto, ao mesmo tempo
em que a passagem de ônibus era elevada, os movimentos de contestação social
questionavam o lucro dos empresários de ônibus obtido através da concessão
autorizada pela Prefeitura Municipal.

O impasse
sempre era colocado em questão, principalmente para a Prefeitura de João Pessoa
que além de autorizar a concessão para o funcionamento das empresas de ônibus,
era responsável por sancionar a tarifa de ônibus no município. Os gestores
municipais eleitos ao autorizarem os aumentos dos preços da passagem, em
detrimento da qualidade de vida dos pessoenses, revelavam a sua posição política.

Por ser o transporte
coletivo uma necessidade básica para o cotidiano das pessoas, possibilitando o
acesso ao trabalho, lazer, educação e saúde, a atuação da iniciativa privada
para obtenção de lucro sempre foi questionada pela população organizada,
principalmente pela classe estudantil e trabalhadores como observado nos
jornais pesquisados.

O
presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal da
Paraíba, Éder Dantas, disse que o DCE tem posição favorável a estatização dos
transportes coletivos e acha um absurdo a forma como vem se dando o
aumento das tarifas. (Jornal
“A União”, 13 de janeiro de 1989)

Além do
elevado preço da passagem de ônibus, outros problemas que têm relação direta
com a existência da iniciativa privada na gerência do transporte, também
coexistiam. Fatores como tempo de espera e superlotação, principalmente nos
horários de pico, eram e continuam sendo um dos maiores percalços do transporte
coletivo por ônibus.

No ponto, o
passageiro espera o ônibus. E o tempo começa a passar: são 15, 20 minutos, que
podem se prolongar até por uma hora se for o momento de rush. Quando finalmente
ele acredita que chegará a seu destino, começa um outro problema: o da
superlotação no transporte coletivo. (Jornal “A União”, 7 de março de 1989)



A obtenção
de lucro no transporte coletivo, além de consumir parte da renda da população,
também é responsável pelo desconforto dos usuários, pois a quantidade de ônibus
circulando na cidade interfere diretamente nos custos para as empresas de
ônibus.


Como se
pode observar no quadro 1, o transporte coletivo em 1993 era gerenciado por 7
(setes) empresas de ônibus, sendo 6 (seis) privadas e 1 (uma) estatal.
Atualmente, destas empresas de ônibus, apenas a Transnacional, Mandacaruense e
a Marcos da Silva existem. Pela falta de informações na Superintendência de
Transporte e Trânsito (STtrans) no período de 1988 à 1996, tornou-se impossível
verificar quando as empresas de ônibus começaram e terminaram sua
operacionalização. O fato é que outras empresas de transporte coletivo surgiram
provavelmente a partir de 1995/1996, com a aquisição das linhas do SETUSA e
demais outras empresas.

*As empresas como a São
Jorge, Boa Viagem e Reunidas, foram criadas a partir de 1996. A família Pereira
do Nascimento (a mesma dona da Transnacional) adquiriram a concessão das linhas
de ônibus de várias outras empresas.

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