Ônibus Paraibanos

Mais da mesma coisa. E o Rangel vai continuar “arrudeando”

Fonte:
Blog Josivandro Avelar

Matéria
/ Texto: Josivandro Avelar

Fotos:
Marcos Filho
Isso mesmo, vem aí o terceiro conjunto de linhas
que sai de Mangabeira, passa no Rangel e vai para a Epitácio e vice-versa. A
diferença é que o ponto final das linhas é no Cidade Verde (Mangabeira VIII) e
uma das linhas substitui o 209. O efeito é prático no Cidade Verde, onde ao
sair do bairro, ambas as linhas seguirão itinerários distintos. Mas ao chegar
no José Américo, cria sobreposição com outras duas linhas que juntas rodam com
18 veículos (9 em cada conjunto, 5 em uma linha, quatro em outra), o que
inevitavelmente implica no esvaziamento das mesmas. Além disso, são ônibus que
atenderão a itinerários que outras linhas já atendem, aumentando a sobreposição
das linhas. Ainda reduzem a possibilidade de integração temporal. Nem depois de
mostrar nesse mesmo blog o quanto o arrodeio compromete a mobilidade do bairro do Rangel a empresa e as autoridades aprendem. 

Aliás, aquele post do Arrodeio urbano que eu postei
em março de 2013 – para você ver que já vinha falando nisso de muito tempo,
ilustra bem a situação que agora vai ficar muito delicada. O corredor da 2 de
Fevereiro passa a ser atendido por 84 veículos distribuídos por 18 linhas.
Dessas 18 linhas, 11 atendem ao bairro de Mangabeira e concentram 55% dos
veículos. As sete restantes continuam a concentrar os outros 25 veículos e a
maior taxa de demoras. Parece algo que tirei do subtítulo do meu primeiro post,
e é isso mesmo, fiz só adaptar a conta.
E mostrando como as autoridades não aprenderam,
durante o decorrer deste post você vai ver trechos do post do Arrodeio Urbano.
Os trechos reforçam a necessidade de compreensão de como as coisas não mudaram
por pura e simples falta de vontade de quem cuida do transporte público de João
Pessoa.
Dos sete corredores de ônibus da cidade, é onde as
linhas são mal distribuídas. Onde para ir de ônibus a uma universidade federal
que fica a menos de 2 km do bairro do Cristo, você atravessa um corredor
inteiro e mais um pouco, andando cinco vezes mais que isso, e como no meu caso,
que estudo na Estrada de Cabedelo (8 km de casa), ter que enfrentar uma outra
linha sujeito a perder a integração temporal dada a fama da demora, enquanto
mal conseguem desenvolver um sistema integrado para Mangabeira, onde as linhas
do 2 nem são as mais usadas (a linha mais usada de Mangabeira, no corredor da
Josefa Taveira, é a linha 301).
Trecho do post Arrodeio urbano, postado no
Blog Josivandro Avelar em 2 de março de 2013
Aqui no Rangel, essas duas linhas criadas agora
serão só mais duas que não terão efeito algum, a não ser beneficiar a empresa
que detém suas concessões. E nem preciso dizer – o restante do post evidencia
bem isso – que já rodam aqui dentro outras linhas parecidas com itinerários que
praticamente se chocam entre si em 80% de seus itinerários. E isso vai
continuar passando a falsa impressão de que a mobilidade do bairro do Rangel é
uma maravilha, o que não é verdade.
Enquanto criam um esquema de linhas “mais do
mesmo”, os moradores do bairro continuarão sofrendo com a burocracia
desnecessária de um sistema defasado e ultrapassado para circular em
determinados destinos.
Como ainda permitem que para se ir até Cruz das
Armas, que é aqui do lado, se vá até o Centro ou Terminal de Integração fazendo
baldeações? E como ainda permitem que os moradores do bairro do Rangel tenham
que arrudear o Centro, passar por um corredor e, depois de tudo isso, enfrentar
um trânsito caótico para chegar até a UFPB? A universidade fica a menos de 3
quilômetros do bairro, mas quem vai para lá precisa andar o triplo disso
(passar pelo Centro, depois pela Epitácio ou Pedro II, e ainda enfrentar o
congestionamento no Castelo Branco) porque é assim que a empresa Transnacional
considera “conveniente” para nós.
Em outros destinos, como da Zona Norte e Oeste
(Cruz das Armas, Mandacaru, Funcionários, Bairro das Indústrias), que possuem
linhas para outros corredores, para quem está na 2 de Fevereiro, o jeito é ir
ao Terminal de Integração ou confiar na Integração Temporal (rezando para que o
carro chegue logo e você não pague outra passagem).
Mais um trecho do post Arrodeio Urbano
Já existe 2514 e 5206. Já existe 2515 e 5210.
Inevitavelmente um desses conjuntos vai ser esvaziado até ser extinto. É mais
estratégia da empresa do que puramente solicitação da comunidade, já que da maneira que o mapa que a Semob divulgou
ilustra
, não era necessário se criar um circular para agilizar o
tráfego em Mangabeira VIII. Os três conjuntos não vão rodar juntos na maior
tranquilidade quando passarem do girador de Mangabeira por Dentro. Vão disputar
passageiros para uma ou duas linhas não rodarem vazias – e uma ou duas rodarem
praticamente vazias é uma coisa praticamente inevitável.
Mais carros aonde já tem mais carros
E ainda conseguiram piorar a situação. O sistema,
que é todo concentrado, vai continuar a ser concentrado, uma prova de como isso
é mais interessante para a empresa de ônibus do que para a comunidade. Um
sistema onde três opções de linhas – 203, 5206 e a linha do Cidade Verde – na
verdade se convergem praticamente em uma só: sair do Rangel para a avenida
principal de Mangabeira, com uma única opção de integração temporal: a da linha
301. Linha circular não integra com outra linha circular – e ninguém desce de
um 203 para pegar outro 203, sendo essa a única opção de linha onde será
permitido integrar com todas as outras (menos as que passam no Cidade Verde),
piorando ainda mais a situação.

O sistema criado para o bairro de Mangabeira
conseguiu a proeza de no bairro concentrar todas as dez linhas numa única parte
do corredor, não distribuindo para outras partes como no caso do 208 e do 201.
Em alguns casos, algumas linhas repetem itinerário, e outras nem deveriam
passar ali, caso do 2307 e 3207, que quando saem da Penha, trafegam pela Josefa
Taveira, coisa que não fazem quando retornam para o destino.
Outro trecho do post Arrodeio urbano
Ao invés de se antever ao futuro – e por futuro
leia-se o Mangabeira Shopping, que está sendo construído na Hilton Souto Maior,
a empresa proprietária das linhas preferiu assegurar o presente. Baseado no
itinerário do 209 – que em parte já era sobreposto ao 203 –, a linha 5209 ao
sair do Rangel, vai para a Josefa Taveira, e a 2509, ao sair da Josefa Taveira,
vai para o Rangel, coisa que outras três linhas já fazem. As mesmas linhas só
vão e voltam para a Hilton Souto Maior, nessa ordem, via Epitácio Pessoa.
Mangabeira tem três entradas (Josefa Taveira,
Alfredo Ferreira da Rocha e Hilton Souto Maior), e no que diz respeito aos
carros que vão e voltam para o Rangel, a diferença entre elas é – e vai
continuar a ser – gritante. Depois da criação das novas linhas, a ordem
continuará a mesma, conforme ilustra a tabela:
Ou seja, as únicas ligações diretas do Rangel para
o futuro Mangabeira Shopping vão continuar sendo as linhas 2307 e 3207. Quer
usar 2509 ou 5209 para ir para lá, então vai ter que continuar arrudeando.
A escala da reação das linhas que já existem
A Semob deve ter planejado essas linhas para a
“redução do tempo de viagem a partir do corredor 2 de Fevereiro”. Se trata-se
de chamar a 2 de Fevereiro de “corredor sem congestionamentos”, há uma
incoerência considerável. Passe na frente do Mercado Público do Rangel e veja
como a carga-descarga chega a comprometer em certos períodos o trânsito da via,
criando retenções.
Além disso, o Cristo e o Rangel são bairros
eminentemente residenciais. A partir da lógica “se você passa na frente da
minha casa, você pode me levar para casa”, não dá para esperar que o carro
passe batido nos bairros. Vai pegar passageiros com esse destino. E como já
existem linhas similares fazendo os mesmos trajetos (eis o conceito de
sobreposição no melhor sentido da palavra), inevitavelmente o passageiro vai
utilizar a linha se este for o primeiro carro que aparecer na parada. Um
passageiro a mais num 2509 ou 5209, é um a menos nas outras linhas já
existentes. E é aí que elas perdem demanda, tornando as linhas
semi-inoperantes.
Se tem um conjunto de linhas que vai sair perdendo
com a criação dessas nova linhas, é o 2514/5206, que tem 4 e 5 carros
respectivamente, e tem um itinerário superficial. Só consegue cobrir sozinha 10
paradas de Mangabeira V (5 em cada sentido). A demanda delas já não é lá essas
coisas, e se for para atender a uma quantidade reduzida de passageiros que usam
a linha em Mangabeira IV (principalmente os que vão até a Epitácio), não faria
mais sentido manter elas como estão. Torna-se possível desfazer o circular.
2515 e 5210 perdem também, mas em menor
intensidade, pois tem uma rua de Mangabeira só para elas, e justamente na parte
do bairro onde o transporte é ruim. Ela só perderia passageiros no trecho José
Américo-Jaguaribe que vão para o Hospital Universitário (o 514 passava lá, logo
as novas linhas também passarão). Mas o que minimiza o prejuízo das mesmas é
justamente Mangabeira por Dentro, já que fora o 303, a 5210 é uma opção de
linha para os Bancários e o próprio HU (só o 5210 leva para esse local).
Até as linhas do Colinas, que não passam na
principal do Rangel (e os motivos vocês já devem imaginar) sairiam perdendo em
escala média. Os passageiros do itinerário do Ceasa não veriam mais negócio em
usar uma linha de 5 carros com intervalo de 45 minutos. Deixa de ser uma opção
viável, mesmo que esse passageiro more ali. Ele vai preferir andar 150 metros
até a 2 de Fevereiro sabendo que vai pegar o carro em uma menor escala de tempo
comparado ao 2501, por exemplo.
O mais viável seria readequar o 2514 e o 5206. Da
maneira que estão, a linha torna-se inviável de se manter.
O Rangel não é só um mero “ponto de passagem”
Mobilidade de verdade é aquela que permite que você
gaste o mínimo de tempo para ir até onde você deseja. Repetir uma fórmula
manjada só mostra o quanto o monopólio dessa empresa no bairro do Rangel é
prejudicial aos seus moradores.
Não resolvem nada. Não tem a vontade de resolver
nada. Enquanto criam mais linhas igual a outras que já rodam aqui fazendo muita
gente acreditar que o transporte do bairro onde eu moro é uma maravilha, o
bairro continua a sofrer dos mesmos problemas. Eu levava uma hora e meia para
ir até a faculdade onde estudava em Cabedelo, entre baldeações e espera por uma
única linha de ônibus que me levasse para o IESP em segurança.
Ainda verei o momento que a minha comunidade vai
acordar para a realidade de que o “mundo da fantasia” construído por
uma empresa de ônibus é pura fachada.
E continuaremos levando tempo para fazer baldeações
e torcendo para que a Integração Temporal do cartão consiga sobreviver a demora
dos ônibus que as pessoas usam para ir e vir até aqui. Podem ter colocado mais
oito carros para rodar aqui dentro, mas os velhos problemas da comunidade
continuam.
E com as mesmas falsas esperanças de sempre, com
soluções que não chegam a ser soluções, mas sim mais da mesma coisa que no fim
das contas, nada resolve, nada acrescenta.
Não é mole depender de ônibus no Rangel. Um bairro
perto de tudo, mas, graças ao sistema remendado de mobilidade que nós temos,
fica longe do que é perto.
Compartilhe esta matéria
ATENÇÃO: Este conteúdo é protegido.