Ônibus Paraibanos

Quem é contra o investimento em transporte público?

Fonte: Época

Matéria / Texto: Alexandre Mansur

Foto: Divulgação
Viramos reféns de uma política que favorece os
automóveis em detrimento do transporte público. Foi isso que levou boa parte
dos milhões de manifestantes às ruas. Segundo uma pesquisa do Ibope e CNT, 77% das pessoas diz que foi protestar por melhores
transportes públicos. Porém, nós também temos nossa parcela de culpa
pela primazia dos veículos individuais. Ninguém, em sã consciência, é contra
investir mais em trens, ônibus e metrôs. Mas a gestão dos prefeitos,
governadores e presidentes é feita de escolhas. Priorizar uma área é
desfavorecer a outra. E muitas vezes nossos sinais foram ambíguos.

Quando a economia brasileira deu sinais de perda de
fôlego com a crise internacional de 2008, uma das principais medidas do governo
para manter o consumo e o emprego foi reduzir os impostos dos automóveis. A
medida foi reeditada várias vezes nós últimos anos. Embora as montadoras e seus
fornecedores empreguem muita gente, algumas pesquisas mostraram que reduzir
impostos para a expansão de trens, metrôs e assemelhados gerava tantos ou mais
empregos, sem congestionar nem poluir as cidades.
Porém, favorecer os automóveis tem um benefício
eleitoral (ou eleitoreiro, como queira). Comprar o primeiro automóvel foi um
dos símbolos da conquista da ascensão dos mais pobres durante o governo Lula.
Garantir altas taxas de emprego dos metalúrgicos na região das montadoras,
cujos sindicatos gestaram o presidente Lula, também não foi ruim. Quantos
eleitores não votaram com isso em mente? Há ainda outros motivos para um
governo incentivar os carros. Eles são a maior máquina de arrecadação de impostos.
Com tantos incentivos, os congestionamentos nas cidades
se multiplicaram. O trânsito ruim piorou a vida de quem fica congestionado
dentro dos ônibus. Uma nova geração está optando feliz por vivem ser
carro. Os benefícios de ficar atrás do voltante já não são tão grandes assim.
A novidade das ruas indica que a população vai premiar
quem fizer um bom trabalho para melhorar os transportes públicos. As soluções
não são revolucionárias. Há vários exemplos pelo mundo, inclusive alguns no
Brasil. Mas melhorar o transporte público tem um preço. Significa piorar a vida de quem anda de carro. Será
preciso alargar calçadas, reduzir áreas de estacionamentos, implantar pedágios
urbanos e criar vias exclusivas para ônibus ou suas variantes, como o BLT (um
ônibus articulado que anda numa pista só) ou o VLT (um bonde moderno). Será que
o desgaste político de irritar tantos motoristas (que se esforçaram para
comprar o carro e mantê-lo) vai compensar?
Pode ser que sim.
Em 1997, quando Fabio Feldmann, secretário de
Transportes do Estado de São Paulo, criou o primeiro programa de restrição aos automóveis,
o rodízio na região metropolitana da capital, conquistou inimizades e pagou um
alto preço político. Isso desestimulou outros executivos a adotar medidas
severas, como rodízios, pedágios ou fechamento de ruas para pedestres.
A onda de manifestações atual pode significar que o
apoio popular a medidas que favoreçam o transporte para todos nas cidades,
mesmo em detrimento dos automóveis, pode agora compensar a irritação de alguns
motoristas com as restrições à circulação. Com sorte, eles também descobrirão
que o dia-a-dia é melhor com o carro na garagem. Faz bem até para a saúde.
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