Ônibus Paraibanos

Ciferal Dinossauro foi fabricado até 1987, inclusive com chassi Volvo

Fonte: Mobilidade em foco
Matéria / Texto: Carlos Alberto Ribeiro
Fotos: Acervo Paraíba Bus Team

“Existiu
ônibus com carroceria Ciferal, modelo Dinossauro, montado sobre chassi Volvo
com motor central? Sobre chassi Scania 11 entre cada 10 busólogos sabe que
existiu. Montados sobre
chassis Mercedes-Benz, uma pequena minoria também lembra. Basta relembrar dos
Tribus 1 da Itapemirim. Mas, e com chassi Volvo? Veja a matéria”.

A
Companhia Industrial de Ferro e Alumínio (Ciferal) foi fundada no ano de 1955,
tendo como sócios um grupo de empreendedores capitaneados por Fritz Weissman,
cidadão de origem austríaca. Foi através da planta industrial da Ciferal que se
difundiu no Brasil a fabricação de carrocerias pra ônibus com chapas de
alumínio, substituindo a madeira que até então era empregada. Sim, para quem
não lembra, não conheceu ou não estudou sobre o assunto, entre 1940 a 1950
quando em solo brasileiro foi começado a produzir as primeiras carrocerias de
ônibus, montadas sobre chassi de caminhão, que tinham sua estrutura remontada,
as laterais, teto, assoalho, bancos, porta e, caixilhos das janelas, tudo era
feito com madeira nobre.

Madeira não era problema naquele tempo. Tampouco existia a legislação rígida de
hoje em dia que exige extração de florestas com manejo sustentável, ou seja,
florestas plantadas pelo próprio homem. O Brasil era, inclusive, um dos maiores
exportadores do mundo de madeira nobre. Tinha em abundância. Era só escolher a
de maior durabilidade, menor peso e que mais se adaptava a cada parte da
carroceria. O emprego do aço, ferro e alumínio viria somente a partir dos anos
60. A Ciferal teve enorme importância para a introdução do duralumínio e chapas
de aço nas carrocerias de ônibus.

Know-how, qualidade, menor peso, era sinônimo de carroceria Ciferal. Tanto é
que a maior fabricante do Brasil no final dos anos 40 e decorrer da década de
50, a Eliziário, com planta industrial em Porto Alegre, fabricava ônibus
somente com madeira. Para migrar da madeira para o emprego de metais no
encarroçamento, diretores da Eliziário visitaram a Ciferal em busca de um
acordo de transferência de tecnologia que permitisse o domínio da técnica de
fabricar carrocerias com chapas de aço. Assim nasceu no inicio dos anos 60 a
carroceria modelo Bi-Campeão Rodoviário Super Luxo, da Eliziário. E quem foi
este ônibus na ordem do dia? Praticamente o rei das estradas para linhas de
média e longa distância nos anos 60.

Nos anos 60 a Mercedes entrou com tudo no mercado fabricando os seus
monoblocos. Além da Eliziário, outras, como a Nicola e Incasel cresceram a
olhos vistos. Porém, no início dos anos 70 a Ciferal surpreende tudo e todos
novamente, como já o fez na década de 50. Numa época em que prevalecia, cerca
de mais de 90% da frota, ônibus de chassi com motor dianteiro, carrocerias de
2,40 metros de largura e altura externa de 2,90 a 3,00 metros, eis que surge um
super ônibus. Era o modelo Dinossauro, com carroceria toda em duralumínio,
chassi Scania BR115 (motor traseiro) ou B110 (motor dianteiro), os mais
potentes do mercado, com 286 cv. Com 13,20 metros de comprimento, 2,57 metros
de largura e 3,50 metros de altura. 

Era o gigante das rodoviárias e o rei das estradas. Com efeito, nenhum outro
rodava com tanta desenvoltura nas estradas. Sua inspiração para criação veio
dos Estados Unidos, dos ônibus norte-americanos. Apresentado no Salão do
Automóvel de 1972, logo começou a rodar nas principais linhas da Viação Cometa,
como Rio de Janeiro x São Paulo e Curitiba x São Paulo. Outras empresas, como
Expresso União, Nacional Expresso, Ouro Branco, Impala, Unida, Soletur,
Expresso Araguaia, Soletur, Real Expresso e Itapemirim, foram algumas das
empresas que compraram Dino nos anos 70. No decorrer de 1981 a Ciferal sofreu
um grande abalo econômico no seu planejamento orçamentário. Como se já não
bastasse a inflação galopante e a queda nas vendas de carrocerias, a
tradicional fabricante sofreu um baque terrível que culminou na sua falência.

A celeuma do processo de falência foi desencadeada com o cancelamento de uma
encomenda de 2.000 carrocerias de trólebus por parte da CMTC (Companhia
Municipal de Transporte Coletivo), empresa estatal que operava o transporte
coletivo no município de São Paulo. A encomenda, além de vultosa pra época, que
também seria nos dias de hoje, aconteceu depois da Ciferal ter investido no
aumento da linha de produção, compra de maquinários, contratação de novos
funcionários e investimento significativo no aumento do estoque de
matéria-prima. O baque foi tão grande que faltou recursos (caixa) até para o
pagamento das contas de curto prazo. Com a decretação da falência, a filial de
São Paulo, Ciferal Paulista, foi adquirida pela Condor. Em 1984 a Condor também
faliu e a sua “massa falida” foi comprada e virou a Thamco.

A Ciferal com planta industrial situada no Rio de Janeiro teve o seu controle
acionário assumido pelo governo do Estado, cujo governador Leonel Brizola, com
o ato de encampação da empresa, evitou que centenas de empregos fossem extintos
numa época de forte crise da economia brasileira. Fala-se nas entrelinhas que o
ônibus urbano Ciferal, modelo Padron Briza, antecessor do Padron Alvorada, foi
uma homenagem ao governo brizolista. Dessa época, 1981 a 1986, a maioria
absoluta dos busólogos, até quem conhece razoavelmente bem do assunto, tem como
certo que a exclusividade dos ônibus modelo Dinossauro, que viraram os Flecha
Azul, pertenceu a Cometa.

Ledo engano. Pra quem pensa que somente a Viação Cometa podia comprar os
“ex-Dinos” na condição de novos, fabricados pela CMA (Companhia Manufatureira
Auxiliar), informo que estão equivocados. A Ciferal, entre 1984 a 1987, também
fabricou os Dinossauros. Outra nota: os Dinos não foram montados unicamente sobre
chassis Scania. A CMA, sim, somente encarroçava este modelo sobre chassi da
marca do grifo. Mas a Ciferal, não. No catálogo de produtos da Ciferal, datado
de julho de 1985, consta que o modelo Dinossauro podia ser montado sobre
chassis Scania K112CL 4 x 2 e Volvo B58 4 x 2, B58E 4 x 2.

3 comentários em “Ciferal Dinossauro foi fabricado até 1987, inclusive com chassi Volvo”

  1. JC e Carlos Alberto, que texto excelente! Fazia muito tempo que eu não lia um texto bem escrito, documentado e que trouxesse novidades. Foi uma surpresa pra mim saber que a Ciferal voltou a fabricar o Dinossauro depois que foi assumida pelo governo do estado, achava que somente os modelos da geração Rios da Amazônia tinham voltado a ser fabricados (Amazonas como Briza ou Alvorada, Tocantins como Fênix, Araguaia como Podium, etc). Seria possível compartilhar o scan desse catálogo de 85? Meus parabéns e muito obrigado!

  2. Há algum tempo também escrevi sobre a história do Dinossauro no meu blog e confesso que na época foquei muito na Viação Cometa e acabei não falando dele sobre outros chassis como Volvo e MBB. Diante disto só tenho agrdecer e parebenizar os amigos do site pelo excelente trabalho documental, Ficou sensacional Parabéns!

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