Ônibus Magnata – Um senhor de respeito na rodovia Via Dutra

Fonte: Panorama Coletivo
Matéria/Texto: Bruno R. Araújo
Correção de texto e adaptação do mesmo: Carlos Alberto Ribeiro
Fotos: Adriano Minervino/Bruno R. Araújo/Douglas de Cezare

Relatamos aqui o que é encontrar nos dias atuais e na mais importante ligação rodoviária brasileira um ônibus que resistiu por quase 30 anos, reunindo no mais alto nível de serviço, a preciosidade sobre rodas. Batizados de Magnata e carregados de histórias, seus dias de glória e exaustivo trabalho ganharam seu descanso numa merecida aposentadoria. No entanto, sobre isso, eu precisava fazer outra singela homenagem a aqueles veículos que marcaram a história do transporte rodoviário brasileiro. Mas além do serviço de status, de máximo de conforto, o que teria de tão diferente dos outros ou, o que os ônibus atuais ainda não teriam ainda? 

Ano 1984: Eram momentos finais de um ônibus Marcopolo III sobre chassi Scania BR-116 de codinome “Coruja”, que vai ser substituído no serviço “Leito”. O veículo escolhido é então o novo top das estradas brasileiras, do recém-lançado em 1984 da série 300 da Nielson, o Diplomata 380, com quase 4 metros de altura, um dos ônibus mais altos do Brasil. O “Magnata”, o novo ônibus do serviço “Leito” do Expresso Brasileiro Viação Ltda., feito para durar, mas só não esperávamos tanto. Com seu interior verde, 23 poltronas, Leito, ar-condicionado, rádio AM-FM, revestimento acarpetado, com bom espaçamento e um conforto sem igual em poltronas soft largas de veludo verde e tapete vermelho, um luxo sobre rodas em um chassi Scania que também era com a mais avançada tecnologia da época do pré-lançamento do primeiro chassi trucado nacional, K-112, originalmente com 333 cv. de potência. Começava ai a primeira lenda que viraria história pra lá de confirmada e que até o presente momento, um tanto considerado pelo proprietário, quanto pelos passageiros, de insubstituíveis.

Ao todo foram adquiridas 11 unidades, que iam do carro nº 4000 ao 4008 e 5000 ao 5010, sempre em números pares. Nos tempos que aos finais de semana era comum ter três, quatro saídas “ Leito” por dia. Logo, com seus clientes fidelizados e assim, quando as primeiras unidades foram vendidas, do carro 4004 até 4010, muitos de seus clientes não só sentiria falta, mas também o exigiriam manter os restantes dos carros em operação e, após diversas tentativas de renovação por idade de uso e a cada chegada de geração nova na frota, foi decretada então sua continuação na operação dos Magnatas até quando puder seguir atendendo, unicamente a pedidos de seus clientes.

Segundo pesquisas, aquela venda dos primeiros Leitos se daria pela queda geral na procura de carros deste serviço quando se incentivavam o uso de serviços mais intermediários, como o Executivo, por exemplo. E assim foi feito até sua última viagem, às 23h50min da noite de domingo do dia 24 de junho de 2012 (carro 5002 SP-RJ; e carro 5008 RJ-SP).

Já a outra história é a que tangeu um momento histórico e decisivo na vida da Expresso Brasileiro, acerca de quando, com a importação mal sucedida em 1956 das 30 unidades do GMC Flexible VL 100, a Nielson como uma fabricante nacional ganhando mercado decidiu por produzir o ônibus de luxo de dois planos num mesmo andar e que pudesse garantir a não necessidade de importação, onde o fato mais que comprovado foi que, ao surgir do novo modelo, levou o nome de batismo do serviço da Expresso Brasileiro. Nome: Diplomata. O Nielson Diplomata. De 1961 a 1990, baseado originalmente no Sceni Cruiser americano, nasceria uma das mais renomadas carrocerias. Reza a lenda que mantê-los na frota simbolizaria como o último do modelo Diplomata produzido graças à empresa que de longe, também ajudou a erguer e fortalecer a marca no qual já foi a maior fabricante de carrocerias do Brasil, a Nielson e o modelo, tendo inicio e resistido até o fim na Expresso Brasileiro, na quebra, recuperação e auge. Com a crise da Busscar e de fato, um domínio do mercado da Marcopolo e seus G7, a sensação de frisson em ter ou andar, estar em um Diplomata, seria o mesmo de estar em um Paradiso atual, o máximo das carrocerias brasileiras. Muito embora a própria Marcopolo fosse uma concorrente direta da época com seus Geração IV, a mudança da marca de Nielson para Busscar e modelo Diplomata para Jum Buss, curiosamente seu sucesso não seria o mesmo dos antecessores na empresa.

Enquanto hoje alguns acreditam até se tratar de má fé em manter um ônibus velho no serviço mais caro oferecido, ou ainda, incompreendidos na forma de ser, já que acreditam fielmente que os ônibus atuais dão sim conta do recado, mas que de fato pouco andara ou veem a distância apenas um carro velho, ainda sim era possível encontrar passageiros que chegam ao guichê da concorrência e pedem pelo Magnata, sendo um tanto lá constrangedor ouvir relatos de alguns bilheteiros da “Rio X SP” da concorrência quando se era pedido pelo Magnata e haviam de então de apontar para o guichê da Expresso Brasileiro. Entre tantos nomes que faz ou fizeram a sua marca na Via Dutra como o Corujet, Dinossauro ou Flecha Azul, Tribus, Double Service, Morubixaba, Rodonave (um concorrente de peso à época) e GTV, podemos dizer que a marca Magnata resistiu mais que o tempo. Mas e para os passageiros, o que poderiam esperar de um requintado ônibus tão antigo para ser mantido em operação? O que ainda, garantisse boa taxa de ocupação tendo a concorrência com a frota renovada? Seria de se esperar que algum diferencial pudesse ter para que mantivesse os clientes fidelizados por tanto tempo e perceber que, para ser mantido tanto tempo de estrada e tendo os próprios passageiros tendo consciência disso, o seu conforto e o silêncio na viagem até hoje não foi superado, quebrados apenas pelo barulho do potente ar-condicionado.

Para aqueles que venham entender a situação, não existiria nada tão especial assim quando apenas o Magnata foi um ônibus bem projetado na sua época e mantido em perfeitas condições de conforto, limpeza e manutenção, com todas as suas poltronas no mesmo tecido original, molas e acessórios que permaneceram ainda duráveis e macias por muito tempo. Estas poltronas, as maiores e as mais largas do trecho até hoje, já foram cogitadas o aproveitamento das mesmas em alguma carroceria mais atual, porém dadas as dimensões para carrocerias atuais, curvatura lateral e entre outros, seria impossível caber, ou se cabendo, não sobraria um espaço mínimo para transitar pelo corredor do salão. Por este motivo nobre com o passar dos anos fez dele um ônibus único, do contrário, não teria permanecido por tanto tempo em operação regular. Hoje, infelizmente, sua manutenção foi deixada de lado nos últimos meses, tornou-se difícil, muito embora fosse verdade que os passageiros já não parecem ser mais os mesmos que o exigiram em manter em operação, mas ainda sim muito procurado até hoje apesar dos transtornos, que como em todo veículo antigo, manter em operação e a disposição do público exige cuidados delicados e condução redobrada.

Outro momento muito interessante de ser lembrado é que este também retrataria a última grande passagem da empresa na briga pela liderança da linha Rio x São Paulo que, segundo às revistas especializadas foi da Expresso Brasileiro por muitos anos. E, ainda com fôlego, impulsionava a concorrência pelo ranking na ponte rodoviária Rio X São Paulo, em que, por várias vezes assumiria a liderança da rival Cometa. E sendo o Magnata a referência de serviço Leito quando se falava em conforto. Até porque sem deixar passar em branco é algo que então poderá voltar com novos controladores. A Expresso Brasileiro, que passou a ser do Grupo Santa Cruz desde o dia 11 de novembro de 2011 e com isso, nesta terceira grande fase da historia dessa empresa, fundada em 1941, teve inicio neste dia 29 de Junho de 2012 o cumprimento da promessa de novos carros, novos Leitos, ultra bem equipados até mesmo para suprir a ausência do Magnata. Sem este fato, o da nova Expresso Brasileiro que se inicia, talvez por isso a sensação dele ter sido imortalizado em sua empresa, onde poderíamos dizer seguramente que, da chegada dos primeiros Diplomatas há mais de 50 anos, da fabricação até o encerramento há um pouco mais de 20, foram, por 28 anos ininterruptos, O MELHOR LEITO DA LINHA Rio X São Paulo. E também após quase 20 anos, a Expresso Brasileiro também voltaria a adquirir chassis da marca Scania, o que não acontecia desde 1993.

E antes de encerrar tenho um dado final para acrescentar. Lembra que eu falei que tal fato de insubstituível foi confirmado pelo dono? Pois é, para quem ainda duvidava da sua importância a unidade 5000 já não se encontrava mais em operação e por bem foi levada pelo dono para fins particulares. Embora o número seja emblemático, não poderia esquecer que é o 4000 o mais antigo de todos e com uma curiosidade final a acrescentar, que ao contrário dos outros, este foi o primeiro e o único com chassi Scania BR116 trucado, adaptado e sendo repotenciado para K-112 com aval da Scania. Como o sucessor do Coruja fez jus ao seu nome e a sua história, como um grande “Magnus bus”, que do latim fez dele o importante e o poderoso das estradas por quase três décadas. Esta é minha singela homenagem a carroceria DAMA DE LUXO da Rodovia Presidente Dutra. Lenda insuperável, por tanto tempo, exigidos rigorosamente pelos seus clientes desde 1984 no eixo Rio X SP. Aos imortais, luxuosos e incomparáveis e, para sempre, MAGNATA! O Nielson Diplomata 380 – Scania K-112 TL S33 da Expresso Brasileiro Viação Ltda.

A Expresso Brasileiro era uma marca que estava apenas adormecida lembrada pelos mais antigos passageiros. Se há necessidade de substituir a marca ou mesmo o Magnata, tudo bem, chega ser compreensível isso. Mas fico apreensivo que mudar exatamente tudo, pra mim é começar tudo do zero. E tudo de uma vez só, neste início, não podem falhar e quanto menos improvisar. Gostaria muito que fossem mantidos os nomes de batismo e até mesmo tenho para todos estes novos veículos em cada serviço, que mesmo sendo lembrança da gestão passada, vale lembrar que toda concorrência mantém suas particularidades. Em especial a Expresso do Sul com o GTV que faz justamente seus clientes perguntarem seu significado (e que infelizmente nem todos os próprios funcionários sabem), que é “Gran Turism Veihicle”. No entanto logo a Expresso Brasileiro que teve, Coruja, Carioca, Gatão, Super, Comanches, tantos nomes… Pra o novo Leito eu batizaria de “Super Nave”, mais fácil e marcante ao invés de pedir pelo serviço de “EB/Double” ou “EB/Leito” que também faria jus ao ônibus, que cá entre nós, é o primeiro leito cama do trecho e precisaria de uma marca própria.

Fica oportuno, para enfatizar o quanto essa empresa prezou pelos serviços do Magnata prestados aos usuários do trecho Rio-SP. Nesse fim esperado até pela renovação e necessidade de reposicionamento, vejo que a Expresso Brasileiro irá travar uma nova concorrência que se faz necessário nesse trecho meio que monopolizado pela JCA.

Uma estratégia com novos serviços Cama Leito que irá ser um diferencial, confesso que esperava um nome para substituir o “Magnata” que sem dúvida será uma lenda entre Morubixabas e Comanches das estradas.

Entretanto, é válida a renovação da frota e a aquisição dos novos Marcopolo Paradiso G7 1800 DD Leito-Cama e Marcopolo Paradiso G7 1600 LD Double Class, ambos sobre chassis Scania K-380, sobre os quais também são muito bons carros, mas ainda assim, um pouco menos confortáveis que os antigos Magnatas… Mas enfim, a Expresso Brasileiro e o Grupo Santa Cruz sabem o que fazem! Posso lhes assegurar que com certeza a Expresso Brasileiro é uma das melhores (quiçá a melhor) empresa rodoviária de passageiros no país fazendo linha, com atendimento e frota sempre impecáveis…

2 comentários em “Ônibus Magnata – Um senhor de respeito na rodovia Via Dutra”

  1. Gostaria de saber se algum deles ficará num museu, proprietário particular, preservado? Não gostei da nova pintura da EB, bem feia… Ótimo post. Parabéns!

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