Ônibus Paraibanos

A história dos ônibus de João Pessoa – Década de 90

Fonte: Portal Ônibus Paraibanos
Matéria/Texto: Kristofer Oliveira
Fotos: Acervo Paraíba Bus Team
Colaboração: Josivandro Avelar / Paulo Rafael Viana / Massilon Júnior / JC Barboza / Marcos Filho

Entrando
nos anos 90, temos ao lado uma imagem de 1996 nas proximidades do Parque Solón
de Lucena, mais conhecido como Lagoa, centro da capital. Imagem melhor não
poderia ser para abrir a postagem da década mais fascinante para quem gosta dos
urbanos, mediante variedade de chassis e carrocerias existentes na década… na
foto, dois Caio Vitória da Boa Vista e Marcos da Silva, um Marcopolo Torino
1989 da Mandacaruense e um Busscar Urbanus II da Reunidas. Particularmente, dentre todas as décadas que vimos nas postagens anteriores até
essa (70, 80 e 90) que estamos abordando (restando apenas uma próxima para
fechar), essa foi a mais marcante para minha vivência busológica… tanto por
ser a única que vivi, juntamente com a década de 00 que veremos na próxima
postagem. A cada ida ao centro no fim de semana com os meus 5, 6 anos de idade,
o meu gosto por ônibus se aprofundava mais, sendo cada viagem uma nova
descoberta. Quem viveu esta década e quem acompanhou os urbanos sabe o quanto
foi bom e o quanto era imprevisível as coisas… cada ida ao centro, cada volta
na cidade não se tinha ideia do que encontraria… hoje, tudo (ou quase) é
previsível…

A Legislação e estrutura vigente na década
Nos
anos 90 aconteceu a última modificação da legislação e validação legal que
tange a estrutura do transporte pessoense. Em 1995, o prefeito Francisco Franca
homologou o Decreto 2.819, no dia 17 de Março, regulamentando o transporte
público de passageitos por ônibus na capital paraibana, revogando o Decreto
1.996 de 12 de Julho de 1990.

Após a homologação da Lei Nº 9.503, de 23 de Setembro de 1997, que instituia o
Código de Trânsito Brasileiro, mais uma mudança estava por vir…em 1998, a
STTrans foi criada pela Lei N° 8.580/98 sob a forma de autarquia municipal de
regime especial, se originando da transformação da estrutura da antiga Superintendência
de Transportes Públicos – STP, órgão responsável pelo gerenciamento dos
transportes públicos criado em 1980. 


E a AETC/JP (Associação das
Empresas de Transporte Coletivo de João Pessoa) continuou com sua atribuição
legal, entre uma delas de comercializar os vale-transporte e passe-estudantil.
Empresas atuantes nos anos 90 – fim da Setusa e da gigante Etur e consolidação do Grupo A Cândido

A década de 90 começou com as seguintes empresas no sistema de transporte:

► Etur
– Operava no Grotão e Funcionários (linhas 101 e 114), Valentina (120), Geisel
(106), José Américo (107), Esplanada/Costa e Silva (102), Distrito Industrial
(115 e 103 – Toália), Cidade dos Funcionários (105), Rua do Rio (109), Gramame
(113), além da Circular 5110 e da interurbana 112 – Conde/Jacumã. Existem
relatos de que ela também operava a linha 117 – Santa Rita via Cruz das Armas;
Etur em Cruz das Armas, na linha 105 – Cidade

► Transurb
– Operava no Geisel (502), Bairro das Indústrias (104), Jardim Planalto (110) e
Alto do Mateus (108);

Thamco Águia da Transurb, prefixo 0232

► Mandacaruense
– Operava as linhas de Padre Zé/13 de Maio (503), Mandacaru (504), Bairro dos
Ipês (505), Estados (506);


► Setusa
– Operava em Mangabeira (305), Bessa (601), Róger (002), Bairro das Indústrias
e Mandacaru (1001) e as circulares 1500/5100/2300 e 3200;

Mercedes-Benz Monobloco O-371U

► Transnacional
– Operava no Geisel (202), Cristo (204), Ceasa (201), Mangabeira (203, 206,
209, 301, 303, 514, 515 e 516), Penha (207), Bancários (302 e 518), Castelo Branco
(304 e 517), Torre (402), Tambaú (510, 511 e 513) e a circular 1510;

0718 da Transnacional, Marcopolo Torino GV com chassi Mercedes-Benz OF-1620

► Marcos
da Silva – Operava em Jaguaribe (003), São José (512), João Agripino (509),
Penha (508), Altiplano (401) e Cabo Branco (507).

Em
1991, mais uma empresa entra em operação, porém, não é uma grande novidade
entre os pessoenses, uma vez que desde 1977 já atuava na Paraíba no transporte
rodoviário interestadual, ligando a capital paraibana a pernambucana. Após mais
uma divisão na Etur, a Boa Vista passa a operar linhas urbanas, operando as 106
– Geisel, 107 – José Américo, 113 – Gramame, 120 – Valentina, além da 001 –
Ilha do Bispo. Não sei se nesse momento ou algum pouco tempo depois, ela opera
o Valentina via Epitácio Pessoa, com a linha 519. O Valentina estava crescendo,
então necessitava do aumento da oferta de transporte, e além do mais, a garagem
da empresa situava-se neste bairro.
Boa Vista, em Cruz das Armas
Na
mesma década, possivelmente, um fatal acidente decide o rumo do transporte
pessoense, após o falecimento do proprietário da Etur e da Marcos da Silva,
ocasionado por um acidente automobilístico na Br-101 quando ambos retornavam de
Pernambuco. Talvez pela falta de habilidade dos herdeiros da Etur em
administrar a empresa, somado as diversas inflações decorrente da crise
econômica no país no início dos anos 90 tenha levado a empresa a falência em
1994. E após 24 anos operando oficialmente no sistema pessoense, sendo a
pioneira com status de empresa, a história da Etur chega ao fim. Coincidência
ou ñ, o tempo oficial dela foi o intervado entre duas conquistas do Brasil em
Copa do Mundo.

Com o fim da Etur,
mais duas empresas nascem em 1994: A Boa Viagem, que herdou as linhas 103, 105,
112 e 5110, a estrutura da Etur e os ônibus; e a Reunidas, do grupo A Cândido,
que começou sua história com as linhas 101, 102, 109 e 114, e utiliza até hoje
a garagem da Transnacional. E curioso que a Transnacional pela primeira vez
passa a operar uma linha radial de Cruz das Armas, a linha 115 – Distrito.
Entretanto, após cerca de 2~3 anos, ela repassa a linha para a Transurb.

06032 da Boa Viagem, Caio Vitória Mercedes-Benz OH-1315 herdado da Etur, na linha 103 – Toália
Daí,
entre 1994 e 1996, o sistema pessoense passa a ter 8 empresas (Transurb, Boa
Vista, Mandacaruense, Setusa, Boa Viagem, Transnacional, Reunidas e Marcos da
Silva), quantidade que ñ tinha desde os anos 90.
1 Caio Vitória da Mandacaruense 0432, 2 Marcopolo Torino GV da Transnacional. Destaque pra o do meio, na linha 305 – Mangabeira / Pedro II
Em
1995, após anos de descaso dos políticos com a estatal, a Setusa entra em
estado terminal com o sucateamento. Após o “vende-ñ vende”,
notificações da STP, tem-se um plano para dar um “balão de oxigênio”
a empresa. Ela repassa a concessão das linhas circulares 2300 e 3200 para a Boa
Vista e Transnacional, respectivamente, e a linha 1001 para a Transurb e Mandacaruense.
Na negociação, a Transurb cede alguns ônibus para a estatal.
No
ano de 1996, a história da Estatal, que durou menos de uma década de atividade,
termina. As linhas 002, 305, 601, 1500 e 5100 passam a ser operadas pela
Transnacional após essa conquistá-la na licitação, conforme previsto pelo regimento do Decreto 2.819 de
1995.
O Fim da Estatal

Após essa conquista da Transnacional, ela amplia ainda mais sua hegemonia no sistema pessoense.

07134 da Transnacional, Marcopolo Torino 1989 (vulgo LN), com destaque pra o slogan na traseira “Ampliando e Renovando”
E
por fim, em 1998, o Grupo A Cândido dá sua ultima cartada da década ao adquirir
a Transurb, passando a se chamar São Jorge após a aquisição, e utiliza a mesma
identidade da empresa-irmã campinense Nacional, mudando apenas as cores.
0267 da Transurb, Ciferal GLS Bus com chassi Scania F-113HL. Esse a São Jorge não chegou a herdar…
Com
isso, os anos 90 passa a contar com as seguintes empresas: São Jorge, Boa
Vista, Mandacaruense, Boa Viagem, Transnacional, Reunidas e Marcos da Silva.
Marcopolo Torino GV Mercedes-Benz OF-1620 da Marcos da Silva
A diversidade da frota

Nunca
a frota pessoense foi tão diversificada quanto nessa década…quem diria que
uma empresa contaria com chassis como VW 16-180 CO, Volvo B-58, Scania F-112 e
F-113 e MBB OF-1315, 1318 e 1620 simultaneamente, como foi o caso da
Transnacional? E esta mesma empresa, contando com carros da Marcopolo, Caio,
Busscar, Thamco e Ciferal. A Boa Vista em questão de novidades foi longe,
trazendo até Engerauto Ford.

Transportes Boa Viagem: Caio Vitória 06001 à esquerda; Ciferal GLS Bus 06002 à direita. Ambos com chassi Scania F-113HL
 
Marcopolo Torino 1989 da Transnacional, com chassi Volvo B-58
Possivelmente
os bons momentos efêmeros da economia quando lançavam alguma medida de
recuperação da mesma após as graves crises gerasse um cenário positivo para as
empresas experimentarem o que o mercado oferecia. O certo é que após o
lançamento do Plano Real a padronização da frota foi um fato que vigora até
hoje. Talvez as empresas após fazerem suas experiências decidiram qual o melhor
chassi e carroceria que atendem as suas respectivas necessidades. Curioso que
no caso da Transnacional, por exemplo, boa parte dos ônibus com chassi
Mercedes-benz foram os que mais duraram na frota.

Da esquerda pra direita: Marcopolo Torino GV da Transurb, Torino 1989 e Caio Vitória da Marcos da Silva, Torino GV da Transnacional
Trazer
ônibus de outros estados foi marcante na Boa Vista, que em alguns momentos
chegou a ter quase que 100% da frota contando com ônibus de fora. Outra que
investiu bastante nos usados foi a Mandacaruense. E alguns desses usados tinham
3 portas, tendo a Boa Vista trazendo praticamente todos com essa configuração.
E falando em ônibus de 3 portas, no início dos anos 90 teve um fato
curioso…uma lei municipal de 1992, se ñ me falha a memória, que obrigava uma
porcentagem mínima de ônibus com facilidade de acesso para cadeirantes. Como ñ
existia elevador na época, a Transnacional trouxe ônibus com 3 portas. Essa lei
municipal acabou sendo “caducada” após a lei federal que obriga os
ônibus do sistema de transporte público fabricados a partir de novembro de 2008
a terem elevadores para cadeirantes.

A expansão pessoense influenciando na estrutura das linhas – Criação das integracionais e do primeiro TIP
Se
nas décadas anteriores a falta de ônibus para o centro pessoense era um grave
problema, nessa década a criação de linhas e o investimento em outras foi
ocasionado pela nova dinâmica da cidade, em que alguns bairros ganharam ares de
“centro”. Se antes tudo se resolvia no centro da capital, ou
comércio, a partir dos anos 90 a centralização dessa área urbana perdeu um
pouco da força, principalmente no fator econômico, e as coisas se fixaram em
certos bairros valorizados pela especulação imobiliária. O bairro de Manaíra
que o diga…

As fusões de linhas
radiais para criar uma chamada “semi-circular”, que no sentido centro
seguia por um corredor e no sentido bairro por outro, foi bem aceita, espelhada
pelo sucesso e do ótimo funcionamento das circulares. A primeira fusão ocorreu
em meados de 1994~1995, com as linhas do Bancários 302 e 518, criando as 3510 e
5310, denominadas inicialmente de Circular Bancários.

Posteriormente,
as linhas 516 e 206 de Mangabeira fundiram e foram criadas as linhas 5206 e
2514. No fim da década, foi a vez das linhas 515 e 210, também, de Mangabeira
se unirem para criar as 2515 e 5210, sendo esta última operada pela Reunidas.
As demais eram operadas pela Transnacional. A linha 307 de Mangabeira que era
operada pela Reunidas foi transformada em 3507 e 5307, chamado inicialmente de
Mangabeira e depois modificada para Cidade Verde.

Para facilitar o
acesso dos usuários de Mangabeira para Manaíra, principalmente para o Shopping
Manaíra, que foi uma grande novidade na época, foi criada a linha 5600, operada
pela Reunidas.

Em alguns bairros
em expansão, como o Valentina, inicialmente foram criadas linhas  radiais
para atender essas áreas, a exemplo das linhas 118, 119 e 121, porém, devido a
alguns fatores elas foram desativadas, e a melhor solução encontrada foi a
criação das linhas integracionais, com o código I0xx. Daí, surgiu no bairro do
Valentina, o primeiro terminal de integração de passageiros, administrada pela
Boa Vista. A integração era feita entre essas linhas integracionais com as
principais do bairro, a exemplo da 120, 519 e 2300, em que pagando apenas uma
passagem era possível andar em dois ônibus.

Terminal de Integração do Valentina. Inaugurado pela Boa Vista, atualmente operado pela São Jorge. Com destaque pra o Caio Vitória, da Boa Vista de prefixo 03391, conhecido na época como “carro-de-boi”, por possuir apenas 1 fileira de cadeiras de cada lado para poder carregar mais gente em pé
Para
facilitar o deslocamento dos usuários de bairros distantes a praia, tanto para
curtir o calor no domingo e feriados, como para shows ou outros eventos, foi
criada as linhas com código “P”. Uma delas que fez sucesso e motivou
a criação da linha 5600 foi a P004, operada pela Marcos da Silva, partindo de
Mangabeira para o Cabo Branco. Posteriormente, foram criadas as P003 – Bairro
das Indústrias e a P004 foi ressuscitada no Alto do Mateus, ambas operadas pela
São Jorge. A Mandacaruense também tinha uma “P” até o Bessa. Após a
criação do Terminal de Integração do Varadouro (que será abordado na proxima
postagem), essas P’s foram extintas, restando apenas duas…a P002 – Cabo
Branco e a P008 – Mangabeira/Penha.
Alguns problemas na década de 90 e as soluções

Até
a criação do Plano Real as greves foram constantes, mediante conseqüência da
inflação, com depredação a ônibus, mas ñ tão grave quanto nos anos 80. Após
esse período, só teve uma greve até hoje, em 1996, que durou menos de um dia, e
uma paralisação de 1 hr na Lagoa. Alguns problemas de superlotação em linhas no
bairro do Valentina e as circulares 1500/5100 foram marcantes, mas nada tão
grave e absurda como nos anos 70 e 80. Houve uma melhora nesse aspecto.

O
trânsito voltou a ficar caótico devido a enorme quantidade de veículos nas
ruas. A solução foi ressuscitar os opcionais no fim de 1997, para estimular as
pessoas a deixarem os carros em casa e usar o sistema de transporte com uma
certa comodidade, que desde o inicio da década de 80 tinha sido desativada.
Primeiros opcionais da década de 90, em destaque o 02201 da Transurb, Marcopolo Torino GV com chassi Mercedes-Benz OF-1620. Ônibus climatizado.
“Frota essencial”, época de greve nos coletivos
Manifestação na Lagoa, ano 1994
Em
1994, o então vereador Ricardo Coutinho, atual governador do estado, propôs uma lei municipal para oficializar os
bacurais que já existem desde os anos 80, com o intervalo no máximo de até 90
minutos, entre as 23 hrs e 5 da manhã, facilitando o retorno para casa de quem
trabalha até o fim da noite em bares e restaurantes, por exemplo.
Bacurau da linha 120 – Valentina de Figueiredo, quando era da Etur
Os anos 90 praticamente remodelou o sistema de transporte e sua tendência que vigora até hoje.
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