De que adoecem e morrem os motoristas de ônibus

Fonte: A Nova Democracia
Matéria/Texto: HRC Souza
Fotos: Divulgação

Quem anda de ônibus sabe
bem. Reclama-se muito do humor — ou melhor, do mau-humor — dos motoristas do
transporte coletivo. No dia-a-dia, no vaivém das grandes cidades, são comuns os
comentários sobre uma suposta má vontade, que seria típica desses profissionais.
Poucos quesionam as razões desta situação. Fala-se ainda que os motoristas do
transporte público muitas vezes se recusam a parar nos pontos de ônibus quando
os idosos fazem o sinal, porque os idosos têm direito à gratuidade. Dizem que
correm demais, que freiam bruscamente, que são apressados no embarque e
desembarque dos passageiros. 

Sob estresse e a infâmia
eles estão ali, conduzindo o carro que sacoleja, faz barulho, está lotado e
parado no trânsito caótico. No entanto, a solidariedade entre os trabalhadores
pressupõe apoio a essa categoria profissional que, como outras, organiza-se,
corre atrás dos direitos e de outras conquistas tão necessárias, tão urgentes
não apenas para os profissionais, mas para todo o povo trabalhador.
Além do estresse diário
compartilhado por todos — motoristas, cobradores e passageiros — os
profissionais do volante são submetidos a condições e rotinas de trabalho que,
num grau tão elevado como em determinadas profissões urbanas, causam doenças
graves e até a morte.
De que adoecem e morrem os
motoristas de ônibus? Esse é o título de um estudo publicado na Revista
Brasileira de Medicina do Trabalho, realizado pelo Dr. Éber Assis dos Santos
Júnior, médico especialista em Clínica Médica e em Medicina do Trabalho, também
diretor técnico da Unidade de Pronto Atendimento Médico da Prefeitura de Belo
Horizonte.
O Dr. Éber demonstra que o
exercício da profissão, nas atuais condições de trabalho desses motoristas de
ônibus, é altamente prejudicial à saúde, causando inúmeras formas de sofrimento
físico e mental, adoecimentos frequentes e morte prematura, explorados que são
em todos os sentidos.

Revendo a literatura médica
dos últimos 15 anos sobre os danos causados à saúde dos motoristas, o Dr. Éber
constatou que essa categoria é submetida a fatores tão degradantes na rotina
profissional que seus integrantes chegam a estar expostos a todos os tipos de
doenças relacionadas ao trabalho.
EXPLORAÇÃO E DIFAMAÇÃO
A Nova
Democracia abordou o tema através do relato dos desrespeitos e humilhações
sofridos pelos motoristas Hélio Rodrigues, José Martins Rodrigues e Vicente
Ferreira Leite. Esses relatos foram extraídos de um levantamento feito pelo
Sindicato dos Rodoviários de Belo Horizonte, o mesmo que organizou a categoria
nas jornadas de lutas da campanha salarial e contra os desmandos das famílias
que controlam o oligopólio das empresas rodoviárias da capital .
As péssimas condições de
assistência médica, o estresse constante, o estado precário de conservação dos
ônibus, a longa jornada de trabalho, os altos níveis de ruído e calor e a
exposição prolongada a poluentes químicos. Esses são alguns dos fatores que
ameaçam diretamente a saúde desses trabalhadores.
A triste constatação é
também um agravante que torna ainda mais indecente a atitude difamatória dos
governos e do patronato, inclusive do seu monopólio nos meios de comunicação.
De braços dados, tentam jogar a população contra os motoristas urbanos e
rodoviários, desqualificando a categoria frente ao povo sempre que ela se
organiza e entra em greve evidenciando algumas de suas justas e incontornáveis
reivindicações.

Alguns pesquisadores a
consideram “uma das mais insalubres e estressantes profissões”. Os
motoristas sofrem um nível de estresse no trabalho muito acima da média.
Demonstraram que eles estão submetidos a riscos maiores de desenvolver doenças
coronarianas. Foram comparados os níveis de tensão da população em geral com o
desses profissionais — e com exames de tensão arterial deles próprios antes da
admissão nas empresas rodoviárias. O resultado indicou que o nível de
hipertensão arterial dos motoristas é significativamente maior.

VOZ DE PRISÃO
Em 15 de junho, o eixo de
um ônibus quebrou em plena Rua São Clemente, em Botafogo, no Rio de Janeiro, e
sete pessoas foram atropeladas. Uma das vítimas, a aposentada Elizabeth Gomes,
morreu enquanto tentava atendimento médico na madrugada depois do acidente. Sua
filha ainda tentou contato com a empresa responsável pelo ônibus, pelo eixo e
pelos atropelamentos, mas foi solenemente ignorada pelos patrões do motorista
Anderson da Silva Pereira. No dia 2 de julho, outro eixo quebrou e um ônibus
que vinha de Santa Cruz, da linha 882, empresa Pégaso, capotou na Avenida das
Américas.
São apenas alguns e mais
recentes exemplos. Uma rápida consulta aos grupamentos de socorro de
emergências do Corpo de Bombeiros faz saber que os acidentes envolvendo ônibus
são uma das principais causas de morte no trânsito na região metropolitana do
Rio de Janeiro, além de serem os mais violentos.
Dois casos ocorridos no ano
passado, porém, ilustram uma regra muito conhecida na rotina dos rodoviários: a
corda arrebenta sempre no lado mais fraco. No caso, motoristas, cobradores e
passageiros.
No fim da noite de sábado
dia 24 de outubro do ano passado, um acidente em Niterói deixou três mortos e
21 feridos. Um ônibus da linha 100 (Praça Quinze-Niterói), da Viação Mauá,
bateu em dois postes na Rua Plínio Leite, a 500 metros do Terminal Rodoviário
João Goulart, seu destino final. Testemunhas disseram que o motorista
Micelemiaz do Espírito Santo foi o responsável pelo acidente, que teria feito
uma curva em alta velocidade. Ele foi agredido pelas vítimas e chegou a ficar
acuado na enfermaria onde foi atendido.
Já no dia 9 de dezembro, o
motorista e o cobrador do ônibus da linha 376 (Pavuna-Praça Quinze) foram parar
na delegacia. Eles receberam voz de prisão depois de não permitirem que um
idoso entrasse no ônibus sem o cartão que dá direito à gratuidade.
No caso do acidente em
Niterói, quem anda de ônibus naquela cidade sabe bem que o trecho da Rua Plínio
Leite costuma ser percorrido de duas maneiras: ou correndo demais ou trafegando
muito devagar. Trata-se de uma longa via exclusiva para o transporte coletivo,
a última antes do Terminal Rodoviário João Goulart. Os ônibus que atravessam o
trecho costumam percorrer longas distâncias, vindos das cidades vizinhas: Rio
de Janeiro e São Gonçalo. Os motoristas precisam chegar ao destino final
pontualmente, em um horário pré-estabelecido pelos fiscais das companhias
rodoviárias. Nem antes, nem depois, caso contrário pode haver um
“congestionamento” nos espaços reservados para cada empresa no
terminal, onde os passageiros desembarcam enquanto outros já vão entrando pela
porta de trás.

Ocorre que, quando o
motorista está adiantado para cumprir o horário, ele percorre todo o trecho da
Rua Plínio Leite lentamente, irritando os passageiros — um transtorno para os
que correm o risco de até perder o emprego. Outras vezes, o motorista acelera
fundo, tentando recuperar o tempo perdido com os percalços do caminho. Fazem
isso sob ameaças de penalidades, casos se adiantem, caso se atrasem.
As empresas negam qualquer
tipo de ameaça, coação ou sanção, da mesma forma que a empresa Transporte
América jurou de pé junto que não obriga seus motoristas e cobradores a
impedir, até onde seja possível, o acesso gratuito de idosos aos ônibus de sua
propriedade.
INTERVIR POLITICAMENTE
Em geral, os casos acusam
que os milhões de pessoas que utilizam o ônibus diariamente para trabalhar,
estudar ou para qualquer outra atividade social, compartilham com os motoristas
ao menos uma parte do estresse e dos riscos à saúde e à vida que esses
profissionais enfrentam diariamente sob o jugo do patronato. Um patronato que,
não satisfeito e ao primeiro sinal de indignação, tenta jogar os passageiros
contra seus empregados, e seus empregados contra os passageiros — trabalhadores
contra trabalhadores.
Principalmente em situações
de greve, quando os grandes patrões promovem campanhas de difamação, mas também
no cotidiano do trabalho rodoviário — através de ameaças explícitas quanto a
cumprimentos de horários, burlas à lei de gratuidade, etc. Situações que
penalizam todos os que vivem por suas próprias mãos. Os que exploram o
transporte público — vale dizer, os que exploram a necessidade de o público ser
transportado pelos que monopolizam o transporte — desafiam, assim, constantemente
a autoridade do povo trabalhador.
O Dr. Éber Assis dos Santos
Júnior, consciente dos problemas políticos e dos problemas de saúde, encerra
seu estudo dizendo:
“A implementação de
mudanças no processo de trabalho (condições e ambiente de trabalho) de motoristas
de ônibus é necessária, visando minimizar as repercussões do trabalho sobre a
saúde destes trabalhadores. Esta implementação de mudanças deve contar com a
participação dos trabalhadores, enquanto sujeitos de sua vida e sua saúde,
capazes de contribuir com o seu conhecimento para o avanço da compreensão do
impacto do trabalho sobre o processo saúde-doença e de intervir politicamente
para a transformação desta realidade, ou melhor, desta triste realidade”.



Até duas vezes mais

Dois pesquisadores relacionaram ainda esses maiores níveis de estresse e de
hipertensão próprios da profissão, e descobriram que seus efeitos são: maior
incidência de problemas respiratórios crônicos, gastrintestinais e musculares.
Casos de morte por câncer de pele, na bexiga e no esôfago são em número muito
maior nos motoristas do que no restante da população. 

Um estudo relacionou a profissão a uma maior incidência de alteração do ritmo
cardíaco, infarto agudo do miocárdio e outras doenças cardíacas isquêmicas
(isquemia é diminuição ou suspensão da irrigação sanguínea) além de outros
problemas no aparelho circulatório.

Lombalgia, a famosa dor nas costas, por causa do sedentarismo e da vibração do
corpo inteiro durante o trabalho, e internação por hérnia de disco foram outros
problemas de saúde constatados, além de surdez, úlceras, dores de cabeça,
problemas nos olhos, na medula óssea, náuseas e fraquezas generalizadas. 

Algumas doenças atingem os motoristas até duas vezes mais do que o resto das
pessoas. A profissão apareceu também entre as ocupações que apresentam maiores
índices de incapacitação física para o trabalho. Um estudo feito na Dinamarca
concluiu que as taxas de internação hospitalar por doenças em todos os órgãos e
sistemas do corpo humano foram mais altas entre os motoristas do que no resto
das pessoas.

O Dr. Éber cotejou todos esses resultados com uma espécie de catálogo mundial
de enfermidades, a Classificação Estatística Internacional de Doenças e
Problemas Relacionados à Saúde. Ele constatou que os motoristas de ônibus
adoecem mais constantemente e morrem mais em 13 das 18 classificações
(excluindo parto, mal formações congênitas e que tais), desde doenças
infecciosas e parasitárias a lesões e envenenamentos.

“E o pulso ainda pulsa”, diz uma música do cantor e compositor
Arnaldo Antunes, depois de enumerar na letra da canção todas as doenças
possíveis e imagináveis…

Anos de pesquisas analisaram também as internações de motoristas de
ônibus em hospitais psiquiátricos. A principal causa das entradas foi por
transtornos de humor, psicoses e paranóias, além de outros distúrbios
psiquiátricos menores. Em alguns lugares constatou-se incidência elevada de
suicídio!

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