Ônibus Paraibanos

30 anos de transporte na América Latina: 15 anos atrás e 15 anos à frente

Fonte: The City Fix Brasil
Fotos: Divulgação

Quinze
anos atrás, a América Latina passou por um ponto crucial para se tornar uma
líder global em sistemas avançados de ônibus, provando que os municípios podem
inspirar verdadeiras mudanças através de uma combinação de liderança, apoio
institucional e financiamento. Hoje, a América Latina tem 50 cidades com
sistemas avançados de ônibus – BRTs e corredores de ônibus – chegando perto de
16 milhões de passageiros por dia (BRT Global Database). A maioria dos avanços aconteceu
nos últimos 15 anos, inspirado pelas experiências marcantes das cidades de
Curitiba, Brasil; Quito, no Equador; Bogotá, Colômbia, e Cidade do México.
Várias barreiras foram superadas no processo, mas existe ainda um longo caminho
a percorrer. 

Cidades latino-americanas precisam enfrentar,
adequadamente, os principais obstáculos institucionais e financeiros para
continuar aprimorando os sistemas integrados de transportes públicos e de dar
exemplos para o resto do mundo nos próximos 15 anos e mais. As cidades precisam
reforçar seus esforços em duas áreas fundamentais. A primeira: qualidade e
subsídios associados para a operação, e a segunda: integração dos sistemas.
Essas ideias foram compartilhadas durante uma apresentação da EMBARQ no Banco
Mundial, em 27 de fevereiro de 2013. A apresentação fez parte da Semana da Rede
de Desenvolvimento Sustentável 2013, na qual o Banco Mundial reuniu sua equipe
global para promover o conhecimento e melhorar o diálogo com os países membros
e parceiros externos. A apresentação da EMBARQ ilustrou o exemplo de Bogotá e como
ela tem influenciado outras cidades e países na região. Também destacou algumas
questões pendentes no processo de expansão de sistemas de ônibus em toda a
cidade dentro de redes integradas de transportes públicos. Na sessão, também
foram apresentadas as experiências sobre as reformas institucionais de
transporte na Romênia e na Índia.
Liderança da América Latina em sistemas de
ônibus: a experiência de Bogotá e sua influência

Quinze anos atrás, a cidade de Bogotá, na Colômbia, mudou
sua prioridade de mover carros para deslocar pessoas, através da criação de
investimentos e instituições para transportes não-motorizados e públicos.
Bogotá criou espaços para pedestres e ciclovias, passou a controlar o uso dos
carros, colocando restrições administrativas e aumentando impostos de combustíveis,
além de implementar um sistema Bus Rapid Transit (BRT) inspirado no de
Curitiba, Brasil. Hoje, após 15 anos de implementação, Bogotá tem sido capaz de
manter a quota do transporte público acima de 70% do total de viagens, aumentou
o uso do transporte não motorizado de 8% para 13%, e reduziu o uso de carro
particular de 18% para 15% – enquanto a renda pessoal continuou aumentando. Um
dos principais resultados desta iniciativa tem sido a redução de mortes no
trânsito, de 1200 para 500 por ano.
Desde as mudanças em Bogotá, 117 cidades ao redor do
mundo adotaram sistemas avançados de ônibus, e grande parte delas se inspirou
diretamente em Bogotá. A inspiração resultou em sistemas avançados em muitas
cidades no México (León, Cidade do México, Guadalajara, Guayaquil), também em
Lima, Peru; em Lagos, na Nigéria; na Cidade do Cabo, África do Sul; em
Ahmedabad, na Índia; e em Guanghzou, China, para citar alguns. A América Latina
tem sistemas avançados de ônibus na Colômbia, México, Equador, Peru, Argentina,
Chile, Venezuela, Panamá, Guatemala e experimenta um grande crescimento no
Brasil, na onda da Copa do Mundo 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016.
Ainda que a reforma seja um “trabalho em andamento”, tem
mostrado resultados interessantes: em 2012 vimos a implantação do BRT no bairro
histórico da Cidade do México, com a Linha 4 do Metrobus;  a construção do
primeiro corredor BRT, o Transoeste, no Rio de Janeiro, e da expansão do BRT
TransMilenio, em Bogotá. Esses e outros sistemas têm alcançado grandes ganhos
em termos de segurança, tempo e confiabilidade, bem como a redução do consumo
de energia e emissões, e desenvolvimento da paisagem urbana.
Apesar dos avanços na América Latina, tem ocorrido alguns problemas comuns. As duas áreas-chave para a melhoria
são a qualidade do serviço, bem como a integração em larga escala de sistemas
de transporte integrados.
Estimule o uso dos sistemas de ônibus ao
melhorar a qualidade do serviço e o financiamento

A melhoria da qualidade de serviço é importante para
manter estes sistemas atraentes para o público, e oferecê-los como uma
alternativa real aos carros e motos. Para proporcionar essa qualidade de
serviço, os operadores de ônibus foram obrigados a pagar por novos ônibus, e
pagar por sistemas avançados de cobrança e sistemas de controle fora de sua
base de receitas ou tarifas. Esse difícil planejamento financeiro resultou em
níveis de ocupação muito elevados, mais passageiros cobrados, resultando em
maiores receitas para pagar por investimentos. Sistemas latino-americanos foram
planejados para 160 passageiros em ônibus articulados, o que significa mais de
seis passageiros em pé por metro quadrado. Isto não é aceitável para os
passageiros que usam o sistema todos os dias, e vários sistemas viram suas
pesquisas de satisfação do usuário cair, por causa da falta de qualidade das
operações.
A América Latina pode olhar para cidades europeias, como
Estocolmo, Suécia; Amsterdã, Holanda, e Copenhague, na Dinamarca como modelos
para atenção à qualidade. Assim como Singapura e Xangai, na China, onde
ferramentas fiscais de valorização do desenvolvimento do solo e da propriedade
do veículo financiam operações, para somar às receitas das tarifas. Esta
abordagem, de fontes adicionais de financiamento, é necessária na América
Latina para aumentar o nível de conforto e o número total de passageiros que utilizam
o transporte público.
Olhar para um transporte público integrado

A segunda área de melhoria de sistemas avançados da
América Latina está na integração com outros meios de transporte. Os corredores
de ônibus avançados desenvolvidos também não tinham conexões com outros
serviços de transporte público. Algumas iniciativas para a integração do
transporte público municipal estão em andamento em Santiago, Chile, que
implementou uma reforma em toda cidade, em um processo que acabou
sendo doloroso. No entanto, cinco anos depois, a cidade resolveu a maioria dos
problemas, depois de decidir subsidiar as operações de forma permanente e
renegociar os contratos com prestadores privados de serviços de ônibus, para
melhor alinhar os incentivos e introduzir controles melhorados. O Transantiago
passou por uma integração completa com um metrô de alta qualidade e reduções
impressionantes na poluição do ar e emissões de gases de efeito estufa.
Acidentes de trânsito envolvendo todos os tipos de ônibus caíram pela metade
nos últimos cinco anos, de mais de 6000 para menos de 3.000, de acordo com
estatísticas nacionais (CONASET).

O exemplo de integração de transporte público em Santiago
está sendo agora reproduzida em Cali, Medellín e Bogotá, na Colômbia, e foi
anunciado no México, Lima e Quito. Assegurar a prestação de um serviço de
qualidade em toda a experiência do usuário do sistema de transporte é a chave
para esses esforços. A maioria das cidades brasileiras já avançou na
integração, com um setor privado forte e instituições governamentais sólidas, e
é esperado que continuem investindo na integração durante os próximos anos.
O modelo global de integração avançada permanece na
Europa, em lugares como Madri, Espanha (Consorcio de Transportes de Madrid),
Londres, Inglaterra (Transport for London) e Paris, França (STIF). Operações de
metrô, trams, trens suburbanos, BRT e ônibus locais e regionais são
administrados por instituições consolidadas, que planejam e financiam operações
e investimentos em redes de transportes públicos, de forma integrada.
Os próximos 15 anos: aprendizagem com o
peer-to-peer e a troca de conhecimento

Parceiros internacionais, como os bancos de desenvolvimento
e ONGs internacionais são fundamentais para o processo de assistência técnica e
operacional para trazer melhorias de transporte público para mais cidades da
América Latina. Esses “stakeholders” precisam continuar com seu apoio e
compartilhamento de conhecimento para construir uma base sólida a partir da
experiência adquirida nos últimos 15 anos. Uma das maneiras mais importantes de
capacitar é através da colaboração peer-to-peer (ponto-a-ponto).
Com a colaboração peer-to-peer e iniciativas de reforma
pública, a América Latina tem uma oportunidade única nos próximos 15 anos para
manter a liderança no desenvolvimento de sistemas de transporte público
avançados, e construir mais sobre o seu sucesso histórico.

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