Ônibus e gente, as paixões do busólogo

Fonte: Revista Abrati
Foto: Divulgação

O tempo
se encarregou de mostrar que o rei Luís XIV estava certo. Em 1826, também na
França, o empreendedor Stanislas Baudry retomou em Nantes a ideia do transporte
público por carruagem e estabeleceu um serviço que ia da região central da
cidade até sua casa de banhos. Para surpresa dele, em breve muitas pessoas estavam
utilizando aquela carruagem — nem tanto para irem aos banhos, mas para se
deslocarem com outras finalidades. Também aconteceu de o veículo de Stanislas
fazer ponto em frente a um estabelecimento comercial chamado Omnibus, um lugar
onde, segundo o nome indicava, havia de Tudo para Todos. A população acabou
associando o nome do estabelecimento ao serviço de transporte por carruagem, e esta
passou a ser chamada de ônibus. 

Nenhum
outro nome seria mais apropriado para aquela novidade. Muito mais que um veículo
de transporte, o ônibus assumiu papel de relevância social e ganhou importância
cada vez maior na vida de cada indivíduo. Mais tarde, atrairia a admiração de
milhares ou até de milhões de pessoas em todo o mundo — os busólogos. O termo ainda
não consta dos dicionários, porém mais e mais pessoas sabem perfeitamente o seu
significado.  
Exposição de ônibus antigos na cidade de São Paulo. Em primeiro plano, o Fofão, ônibus de dois andares criado para a antiga Companhia Municipal de Transportes Coletivos — CMTC —, da Prefeitura da Capital, durante a gestão do político Jânio Quadros
Um
dos mandamentos da arte de gostar de ônibus é definitivo: busólogo que é
busólogo não se limita a tirar e postar fotos dos veículos que admira. É alguém
que se interessa por esse meio de transporte, quer contribuir e sugerir
melhorias; procura entender a história da evolução dos transportes e, acima de
tudo, gosta de se relacionar com pessoas. Não há uma estimativa oficial sobre o
número de busólogos que há no Brasil, mas, levando em conta as comunidades de
sites de relacionamento, as redes 
sociais, os blogs etc., é provável que os
aficionados passem de 30.000.
Antônio Kaio Castro e Bruno Covas: um dia
pela preservação da memória dos ônibus.
Antes
mesmo de o termo busólogo começar a ser usado, em toda parte centenas ou
milhares de pessoas já cultivavam o gosto pelos veículos gigantes que levam
vida e progresso aos pontos mais remotos, nos mais diversos países e nas mais
diferentes realidades. E gostar de ônibus não é privilégio de brasileiro; hoje,
há grupos de entusiastas em diversas partes do mundo. Todos esses amantes dos transportes
têm algo em comum: a presença do ônibus em suas histórias de vida. O que
reforça a certeza de que, muito mais que gostar da máquina, os busólogos de
verdade se ligam nas pessoas, no seu cotidiano.    
O
PRIMEIRO
Helio Luiz Oliveira, o primeiro admirador
de ônibus a ser chamado de busólogo.
O
termo busólogo surgiu dentro de uma fábrica de ônibus, a antiga encarroçadora
Thamco, de São Paulo. E o primeiro admirador de ônibus batizado com esse nome
foi o projetista Hélio Luiz Oliveira, que trabalhava na Thamco e tinha como
colegas mais próximos Jean Robert Dierckx e Oscar Pipers, responsáveis pelos
projetos das carroçarias. Eles sabiam do gosto algo exagerado de Hélio por
ônibus. “O termo ‘busólogo’ tomou por base as palavras  bus, de ônibus, é claro, e logo, filósofo,
aquele que fala bastante sobre algo, aquele que pensa sobre algo. E eu não só
trabalhava com ônibus, mas demonstrava o meu gosto em trabalhar com ônibus. O
apelido me foi dado de brincadeira pelo Jean Robert e pelo Oscar Pipers, dois
grandes profissionais. Para o Jean, ‘busólogo’ virou meu sobrenome: ele me
chama de Helio Busólogo” – relembra Hélio Luiz Oliveira, que desde 2003 edita a
revista In Bus, obviamente especializada em ônibus. 
Hélio
foi um dos projetistas do popular Fofão, o ônibus de dois andares criado por
encomenda do político Jânio Quadros, quando ele ocupou a Prefeitura de São
Paulo pela segunda vez, nos anos 1980. O antigo projetista, hoje jornalista,
recorda que o veículo foi um desafio e era ousado para a época no Brasil. 
“Inicialmente
ele foi idealizado pelo escritório de arquitetura Gapp. Nós da Thamco o
adaptamos para a realidade mecânica, para ele rodar de fato. As janelas eram do
monobloco Mercedes Benz O 364 e a frente foi inspirada no carro para metrô
produzido pela Mafersa. O chassi era o Scania K 112 com motor traseiro. O
ônibus tinha 4,20 m de altura, 10,5 m de comprimento e 2,60 m de largura. No
total, foram produzidas 91 unidades” — conta Hélio.
O ex-projetista
da Thamco foi um dos fundadores do primeiro clube oficial de admiradores de
ônibus do País. Era o CDO — Clube do Design de Ônibus —, criado em 19 de abril
de 1979 por ele e pelos colegas Nelson Mitaki, que atuou na encarroçadora Caio,
e Marcelo Ferreira, que trabalhou na Nielson/Busscar. O CDO chegou a catalogar
276 indústrias de ônibus em todo o mundo. Um dos destaques foi a marca Ikarus,
da Hungria, que produzia cerca de 22.000 ônibus por ano. 
Ainda
hoje Hélio mantém o hábito de viajar de ônibus, sempre que tem tempo para isso.
Sua maior façanha foi ir de ônibus de Porto Alegre a Porto Velho para ter o prazer
da viagem e para conhecer melhor sistemas, pessoas e cotidianos. Embora tenha
espaçado as viagens por razões profissionais, diz que não quer parar por aí. Um
de seus projetos é ir de Porto Velho a Manaus — uma viagem que, ele imagina,
deve guardar boas surpresas e lhe proporcionar muitos conhecimentos.
ADMIRAÇÃO
ANTIGA
O
número de admiradores de ônibus cresceu muito com a popularização da internet —
ou seja, de 2000 para cá. A facilidade de acesso às imagens e às informações, a
praticidade e o baixo custo das câmeras fotográficas digitais, a possibilidade
de rápida identificação com pessoas que têm os mesmos gostos explicam por que na
era digital o número de busólogos vai ficando cada vez maior. 
Mas
o fenômeno da admiração pelos ônibus é antigo, vem desde o tempo tempo em que
quem gostava do veículo tinha de investir, comprando filmes fotográficos,
pagando revelações em papel, viajando mais de ônibus. A função exercida hoje
pelas redes sociais era cumprida por revistas e pelos correios, como recorda o
busólogo Douglas de Cezare, cujos primeiros contatos com pessoas que também cultivavam
o gosto por ônibus foram feitos por correspondência. O gosto dele por ônibus
começou em 1979. 
Douglas de Cezare, busólogo e dono de um acervo com mais de 35.000 fotos de ônibus.
“Eu
morava na Vila Alpina, na zona Leste de São Paulo, e admirava muito os ônibus
que passavam perto de casa. Por volta de 1984, eu comprava a revista Carga
& Transporte e comecei a ter os primeiros contatos com admiradores de
ônibus. Pegava os endereços deles com a redação da revista e trocava fotos e
informações. Descobri então que gostar de ônibus é mais do que admirar um
veículo, é uma oportunidade de fazer amigos. Com muitos desses contatos eu fiz amizades
que não se limitaram a conversas sobre ônibus. Desses contatos já vi resultarem
até casamentos, pois gostar de ônibus é gostar de gente” – conta Douglas,
revelando que possui um acervo de 35.000 fotos de ônibus, todas de sua autoria
ou de amigos. Um acervo que não serve apenas como recordação, mas como fonte de
pesquisa até para as companhias de ônibus.
Outro
vasto acervo de imagens e publicações pertence a mais um apaixonado por ônibus,
o busólogo Adalberto Mattera, hoje com 62 anos de idade, que costumava recortar
de revistas as fotos em que apareciam ônibus. Aliás, recortava até os anúncios. 
Por prazer, Adalberto Mattera dirigia veículos da empresa de seus primos mesmo sem ser
funcionário. Caso deste monobloco junto ao qual ele foi fotografado em Aparecida em 1982.
“Hoje
tenho um armário cheio de fotos, catálogos, reportagens, material que ficou
para a história. Minha vida e minha identidade estão marcadas pelo ônibus” –
diz Mattera, que em 1963 viu uma empresa nascer praticamente no quintal de sua
casa, quando alguns primos fundaram a Turismo Santa Rita, dedicada a fretamento
e turismo. Deste modo ele teve a oportunidade de acompanhar o dia a dia de uma empresa
desde o seu início. O primeiro ônibus da Santa Rita foi um Chevrolet 1954,
mantido até hoje.
O busólogo Matterra hoje: junto ao GM PD
4104, um clássico da história do ônibus.
Outro
modelo que pertence à coleção da Santa Rita, e que Adalberto admira muito, é o
GM PD 4104, o famoso Morubixaba que a Viação Cometa trouxe para o Brasil e
ficou famoso na linha Rio–São Paulo. O ônibus da coleção foi comprado de uma
igreja evangélica nos Estados Unidos e restaurado no Brasil, depois de uma infrutífera
tentativa de adquirir um exemplar pertencente à Cometa. 
BONS
CLIENTES
Outro
mandamento entre os aficcionados estabelece que busólogo mesmo tem de viajar é
de ônibus. E é por isso que os admiradores de ônibus estão entre os melhores
clientes dos serviços das empresas, tanto urbanas como metropolitanas, tanto de
fretamento como rodoviárias. São clientes especiais que se interessam pelos equipamentos
e entendem dos modelos, das linhas, dos sistemas. Além disso, sempre que podem
eles fazem viagens para estar informados sobre o dia a dia de uma linha, e
também para conhecer as empresas. Perda de tempo e dinheiro? Não: oportunidades
para conhecer locais e costumes diferentes, fazer novos amigos. E assim, acabam
ajudando as empresas. Hoje, as grandes companhias mantêm canais abertos com os
admiradores e sabem que eles não estão interessados em apenas tirar fotos.
Gostam de fotografar os ônibus, é claro, mas também participam da organização de
encontros e até de determinadas atividades das empresas.
Algumas vezes, eles
sugerem mudanças ou inovações que acabam sendo úteis às companhias. 
Um
exemplo é o busólogo Douglas Paternezi, de Osasco, na Grande São Paulo, que
auxilia nos encontros de admiradores promovidos pela Viação Garcia, de
Londrina. 
Douglas ajuda a organizar encontros de admiradores na Viação Garcia, em Londrina. Seu pai
trabalhou nessa empresa quando o jovem ainda era um bebê.
“Os
busólogos sempre querem ajudar aquelas empresas que perceberam a importância
deles para o seu marketing e a sua imagem. Com a popularização da internet, se
uma empresa abre suas portas aos fãs em encontros organizados, no mesmo dia aparecem
fotos e referências positivas sobre ela na rede. Depois que organizamos
encontros na Viação Garcia, outra grande empresa, a Progresso, de Recife, nos
procurou para fazermos um trabalho semelhante para eles”, informa Douglas, cuja
admiração por ônibus vem desde os tempos em que tinha 9 anos de idade. 
Por
coincidência, o pai de Douglas trabalhou na Viação Garcia — mas isso quando o
filho ainda era muito novo, tinha apenas 3 anos de idade. Não foi por conta
disso que o rapaz começou a ter contato com os admiradores de ônibus, mas ele
se orgulha de ajudar na organização das visitas e de ter um bom relacionamento
com a diretoria da empresa onde o pai trabalhou. “Parece que é destino”,
comemora.
Em Campinas,
no interior paulista, o busólogo Luciano Roncolato mantém contatos com empresas
de ônibus e ajuda a organizar encontros em suas garagens, como também em locais
públicos, como ele conta:
Ser admirador de ônibus possibilitou a Luciano Roncolato conhecer muitas pessoas e fazer
muitos amigos. Hoje ele ajuda a organizar exposições e passeios na cidade de Campinas.
“Há
alguns anos fizemos uma parceria com o Portal do Ônibus, comandado pelo também
colecionador Juverci de Melo das Neves, de São Paulo. Já trouxemos para
Campinas três edições da Bus Brasil Fest, que é uma tradicional exposição de
ônibus realizada sempre com muito sucesso. Antes disso havíamos realizado o
primeiro City Tour, que levou os colecionadores à garagem da Itajaí Transportes
Coletivos a bordo de um ônibus que estava em testes na época. Desde então, todos
os anos realizamos um city tour, sempre com um veículo novo, e assim
congregamos os colecionadores de diversas partes do País.”
Tadeu Carnevalli
O
site Ônibus Brasil, de Tadeu Carnevalli, da cidade de Cornélio Procópio, norte
do Paraná, é outro espaço que reúne informações e fotos na internet. Ali é
possível encontrar mais de 900.000 imagens de veículos de quase todas as
empresas brasileiras, além de fotos de outros países. Só de fotos para papel de
parede são aproximadamente 200.000. Por dia, são postadas cerca de 2.000 novas fotos
de ônibus. O site tem cerca de 18.000 usuários cadastrados, sem contar os que
acessam o Ônibus Brasil sem se cadastrar ou só para olhar as fotografias. O
busólogo Tadeu conta que seu avô era caminhoneiro e foi por ele que fez as
primeiras descobertas sobre o mundo dos veículos pesados. 
Posteriormente,
as muitas viagens entre Londrina e São Paulo avivaram ainda mais o interesse de
Tadeu, que é analista de sistemas e sempre incluía o assunto transportes em
seus trabalhos de faculdade. Mais tarde chegou a criar alguns sistemas para
facilitar o gerenciamento de sua coleção, e disso lhe veio a ideia de criar o
site.
O
VVR — Viver, Ver e Rever resgata a história do ônibus
Os
encontros de busólogos, geralmente em torno de exposições e mostras, são uma
maneira de homenagear a história do ônibus, resgatá-la, fazer com que as novas
gerações tenham acesso a ela e saibam dar valor às conquistas já alcançadas. Um
dos principais eventos dessa natureza é a exposição VVR – Viver, Ver e Rever, a
Evolução, promovida pelo Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro. Ocorre todo
ano no Memorial da América Latina, no bairro da Barra Funda, com o patrocino da
Mercedes-Benz. Neste ano, será realizada nos dias 10 e 11 de novembro, com
entrada gratuita (veja o cartaz ao lado). 
O
fundador do clube e idealizador do encontro, Antônio Kaio Castro, conta que a
VVR nasceu como uma confraternização de amigos e até hoje mantém esse espírito,
embora com dimensões maiores. A cada nova edição, novos amigos, novas histórias
e a oportunidade de reescrever e registrar a história dostransportes e de
vidas. O evento desperta a atenção dos admiradores de várias regiões do país e
até do exterior.
Kaio,
no entanto, relata que às vezes encontra dificuldades para contatar empresas de
ônibus e conseguir que elas participem da exposição. “Sabemos que o transporte
de um ônibus antigo requer logística, cuidados, mas vale a pena; a empresa
divulga a história, mostra seu papel no desenvolvimento do País e não precisa
pagar para ser expositora.”
De
qualquer forma, o evento tem dado frutos e outros encontros começam a ser
realizados em diversos lugares. Em Novo Hamburgo-RS surgiu o Segundo Clube do
Ônibus Antigo Brasileiro. Em Belo Horizonte, admiradores pretendem promover um
evento nos mesmos moldes da VVR. Em São Paulo, foi aprovada a Lei nº 14.145,
que instituiu a data de 30 de novembro como o Dia da Preservação da Memória dos
Transportes em Ônibus. 
Enquanto
isso, Antônio Kaio Castro já deu início a um movimento nacional que tenta
promover o resgate da história das cidades pelos ônibus, com a criação do Museu
Nacional dos Transportes Públicos. Obviamente, com ênfase para os ônibus.
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