Ônibus Paraibanos

Série histórica especial: Viação Bonfim – A pioneira do transporte na Paraíba

Fonte: Rota Bus PB
Matéria/Texto: Kristofer Oliveira
Colaboração: JC Barboza/Philippe Figueiredo/Marcos Filho/Paulo Rafael Viana/Edmilson Vitoriano/Claudemir Barros
Fotos: Acervo Paraíba Bus Team/Kristofer Oliveira/Thiago Martins de Souza/Fábio Gonçalves/Luciano Formiga

Quem vê a Bonfim hoje, operando apenas uma linha e com uma pequena frota, não imagina o tamanho da sua contribuição e importância no que tange o transporte paraibano. A sua longínqua trajetória carrega consigo diferentes momentos que geram possibilidades de trazer a tona os mais variados sentimentos. Foram poucas as empresas que já vivenciou quase de tudo ao decorrer da sua existência. Vamos nessa matéria conhecer mais um pouco dessa tradicional empresa de ônibus paraibana!!!

Severino Camelo – Em busca da realização de um sonho

Assim como quase todos que nasceram no interior paraibano no início do século passado, a sua infância e juventude foi marcado por muito trabalho e dificuldade na cidade de Esperança. Diferente dos demais, ele costumava juntar dinheiro para colocar em prática algum negócio.

Após o Serviço Militar em João Pessoa e conseguir juntar algumas economias, retorna a sua cidade em 1922 e adquire um ponto comercial, passando a comercializar frutas, verduras, farinha, etc.

No fim de 1927, após juntar um conto e 500 de réis, adquire um carro e começa a operar a linha Esperança x Campina Grande, iniciando-se no mundo dos transportes. Após três anos, adquire de um rapaz em Campina Grande um ônibus usado de madeira por quatro contos e 500 mil réis, com alguns defeitos, mas o suficiente para transportar 20 passageiros e algumas bagagens.

O transporte nessa época era bastante complicado, pois a viagem entre Esperança e Campina Grande poderia durar das 6 da manhã até as 17horas, isso com a estrada em condição razoável. Caso chovesse, facilmente o sôpa atolava e poderiam passar até três dias no local.

O Severino Camelo era de tudo…motorista, cobrador, carregador, mecânico, etc.

Em 1940, passa a residir em Campina Grande. Uma nova estrada surge no estado, ligando João Pessoa a Campina Grande. Ele disponibiliza mais um ônibus para fazer esse trajeto, dos seis novos que acabara de adquirir, fabricados em João Pessoa e de madeira do tipo sucupira e guaraúna.

Em 1948 a situação melhora bastante. Severino Camelo compra de um empresário paraibano, o José Alves de Azevedo, a linha João Pessoa x Recife, já utilizando ônibus mais modernos, com carrocerias feitas no sul. A situação melhora ainda, algum tempo depois, quando começam a surgir os primeiros ônibus Mercedes-Benz e o nosso perseverante paraibano não é mais apenas um simples transportador, é proprietário da Empresa Viação Bonfim. Também, torna-se pioneiro na aquisição de ônibus Mercedes-Benz na Paraíba, comprado a Aldino Pimentel, então concessionário em Campina Grande.

A consolidação de um império e o seu encolhimento

Entre os anos 50 e 70, diversas estradas estavam sendo construídas ou pavimentadas, interligando cidades e localidades. Com isso, um aumento na demanda por transporte surgiu na Paraíba para suprir essa necessidade.

Mesmo consolidada como uma empresa, um fator no início dos anos 60 foi fundamental para a Bonfim: a esquematização mais administrativa visando a sua ampliação com qualidade. O General Aldenor Valente Quinderê deu uma contribuição significativa nesse sentido ao unir os laços coma família Camelo após sua filha se casar com um dos filhos do proprietário da Bonfim. A primeira preocupação foi criar os meios de trabalho e então começaram a construir uma garagem, que é esta atual. A partir daí a empresa estruturou-se de maneira a prosseguir no seu desenvolvimento.

Até o início dos anos 70, a Bonfim tinha cinqüenta ônibus na sua frota, 100% Mercedes-Benz e um quadro com cerca de 160 funcionários. Tinha agência própria em João Pessoa, Campina Grande, Natal e Recife.

Até então, nos primeiros anos da década de 70 tinha a concessão das linhas:

  • João Pessoa x Recife (Operada desde 1948 pela empresa e apenas essa desde 1979);
  • João Pessoa x Natal (Negociada com a Viação Nordeste);
  • João Pessoa x Rio de Janeiro (Negociada com a Itapemirim);
  • João Pessoa x Goiana/PE (Repassada a Viação Boa Vista);
  • João Pessoa x Cajazeiras (Repassada a Viação Gaivota);
  • João Pessoa x Patos (Repassada a Viação Gaivota ou negociada com a Viação Patoense, a verificar) ;
  • João Pessoa x Campina Grande (Negociada com a Real da Família Brito);
  • João Pessoa x Brejo Paraibano (Negociada com a Família Azevedo (Bela Vista) e possivelmente a Família Amorim da Guarabirense);
  • Recife x Natal (Negociada com a Viação Nordeste);
  • Campina Grande x Recife (Possivelmente negociada com a Progresso);
  • Campina Grande x Natal (Negociada com a Nordeste);
  • Guarabira x Recife (Negociada em 1979 com a Itapemirim);

Até a primeira parte dos anos 70 boa parte de suas linhas foi negociada, ocasionada por problemas de ordem familiar e, consequentemente, administrativa. Em 1975, a empresa teve 50% de redução da sua frota, ficando com apenas 25 carros para as duas únicas linhas: João Pessoa x Recife e Guarabira x Recife. De todas as suas linhas citadas acima, a João Pessoa x Recife era a mais rentável, uma vez que em Recife tinha de tudo que o pessoense necessitava, além das mercadorias serem mais baratas. Em 1979, ela negocia a linha Guarabira x Recife para a Itapemirim, passando a operar apenas uma linha, além de operar, também, no fretamento para turismo. Atualmente também explora o setor de encomendas entre João Pessoa e Recife.

Mesmo operando apenas uma linha, a Bonfim não perdeu a sua força e sua importância, pois, além de continuar a prestar um ótimo serviço, continuou com o seu pioneirismo ao adquirir novidades no segmento de ônibus rodoviários.

A Bonfim gerando outras empresas

O Severino Camelo não criou apenas a Bonfim, mas também outras empresas.

No dia 19 de agosto de 1954, a Viação Gaivota foi fundada, e nos anos 70 vendida para  Fernando Barbosa. A Gaivota na nova administração teve um notável crescimento se tornando em umadas principais empresas paraibanas. Chegou a operar a linha Recife x Iguatu/CE via João Pessoa e Campina Grande, além das linhas: João Pessoa x Recife, Cajazeiras x Recife e linhas de Campina Grande para o interior.

Nos anos 70, a Viação Luso-Brasileiro, mais conhecida como Canarinho, foi adquirido junto a família Azevedo. Essa empresa operava linhas para cidades do litoral sul paraibano.

Após a aquisição, o nome foi modificado para Viação Boa Vista e foi administrada por um dos filhos do Severino Camelo. Além de operar para o litoral sul paraibano, a Boa Vista passou a operar para Goiana e Recife. A empresa foi vendida para a Progresso e passou um tempo sendo operada pela Viação Cruzeiro, empresa do mesmo grupo, mas retornou a ser Boa Vista. Encerrou suas atividades em meados de 2001 e passou a operar no turismo em Salvador.

Entre as empresas urbanas, duas foram criadas. A primeira foi a Bonfinense, entre os anos 60 e 70, que fazia linha ligando Cruz das Armas a Tambaú. Não durou tanto tempo, pois empresa urbana era pouco rentável comparada a rodoviária. A segunda foi a Boa Vista, fundada em 1991 após adquirir parte das linhas da Etur junto aos herdeiros do Abelardo Azevedo, proprietário da Etur que faleceu num acidente automobilístico. A empresa durou apenas 11 anos.

Atuais dificuldades

A Bonfim entrou em crise nos últimos anos. No ano de 2010, a solução para permanecer operando foi fazer sociedade com um empresário mineiro, negociando 50% da empresa. Foram adquiridos junto a Expresso Guanabara quatro Marcopolo Paradiso G6 1200 O-500RS de 2005, dando uma maior qualidade na sua operação.

A última semana de agosto de 2011 poderia ter ceifado de vez a história da Bonfim. A sociedade foi desfeita e os ônibus introduzidos pelo empresário mineiro foram retirados da frota, causando um grande transtorno, inviabilizando a operação da empresa. A priori, no dia 26 de agosto a empresa tinha negociado a sua concessão da sua única linha com a Progresso, e esta colocaria a Viação Cruzeiro para operar os horários da Bonfim, marcando o retorno dessa viação pernambucana a esta linha. Para não encerrar as suas atividades, a Bonfim planejava continuar apenas no fretamento para turismo. Porém, na tarde do dia 29 de agosto, a Bonfim retorna a operar a sua linha por direito.Em 20 de Abril de 2012, a Bonfim paraibana inicia uma  parceria com a Bomfim de Sergipe, com alguns dos carros da empresa sergipana operando a única linha da Bonfim paraibana, porém a parceria durou pouco tempo e a parceria foi desfeita.

Bomfim a seviço da Bonfim

Com isso, a Bonfim continua firme na linha e está buscando meios de permanecer viva, pois o espírito de perseverança do Sr° Severino Camelo está presente para a felicidade de quem admira esta empresa de verdade e reconhece a sua importância dentro do estado

Também, esperamos que a direção da Bonfim aprenda com os seus erros para que certas coisas não venham mais a acontecer, pois é necessário ter ciência de que apenas de história e nostalgia não é possível manter uma empresa viva e competitiva. Do passado tiramos lições e admiração, mas o presente é agora.

Frota atual

A atual frota da empresa é composta por apenas seis ônibus. Vejam eles:

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7 comentários em “Série histórica especial: Viação Bonfim – A pioneira do transporte na Paraíba”

  1. Essa empresa pertenceu a ilustre Família Camêlo, uma família nobre que chegou no Nordeste no período que D. João VI chegou ao Brasil. A Família Camêlo são legítimos descendentes das antigos Reinos medievais de Leão e Reis Godos. O Primeiro integrante da família Camêlo era Dom Gonçalo Martins Cunha Camêlo, 6º Neto do Rei Ramiro II de Leão. É Fascinante a história dessa família.

  2. Meu pai, José Elias Pereira, foi motorista por muitos anos e a admiração dele pela empresa é tanta que até hoje, out/2020, ouço histórias dele e a empresa.

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