Ônibus Paraibanos

Hackers usam ônibus para difundir educação digital

Fonte: Auto Esporte
Matéria/Texto/Fotos: Giulia Lanzuolo

Não reparem na bagunça, faz pouco tempo que o ônibus voltou de
viagem”, explica a jornalista Lívia Ascava enquanto sobe os degraus do
Mercedes-Benz O-371 de 1989, grafitado por quatro artistas. Há pouco mais de um
mês, o Ônibus Hacker, como é chamado, deixou seu estacionamento no bairro
paulistano do Jaguaré, em São Paulo, e partiu rumo ao FISL (Fórum Internacional
de Software Livre), em Porto Alegre. Parece papo de geek, mas por trás das
viagens de Lívia e outras 30 pessoas se esconde um projeto social que busca
mudar comunidades e até bairros por meio da tecnologia.

A ideia de criar o ônibus surgiu nos
debates da Transparência Hacker, fórum online que questiona a omissão de dados
públicos na internet. Em julho de 2011, o projeto foi colocado no Catarse –
site de financiamento colaborativo – e não demorou muito para que 464
apoiadores doassem um total de R$ 58.593, superando a meta inicial de R$ 40
mil.
Até agora, foram realizadas 13 “invasões”,
como foram batizadas as intervenções do ônibus. 
O nome não foi escolhido à toa.
Ao chegar à cidade-alvo, o grupo convida participantes usando uma estratégia
bem mais prosaica: por meio de um megafone. Depois de reunir algumas pessoas,
perguntam qual é o maior problema da região e propõem soluções através de
oficinas de rádio, blog, mapeamento cartográfico e análise de dados, entre
outros.
O ônibus costuma se tornar um chamariz para as
crianças. Mas não se engane pensando que o projeto é brincadeira. Numa invasão
à cidade de Ribeirão Preto (SP) em abril deste ano, foi o público infantil que
apontou alguns policiais como um dos principais problemas de uma comunidade,
acusando oficiais de abuso de autoridade. Elas afirmaram, ainda, que o problema
só cessava com a chegada da imprensa. Foi aí que a equipe hacker questionou: e
se vocês fizessem o papel dos jornalistas? Começava uma oficina sobre como
elaborar um blog.
Mas o ônibus não foi concebido a partir desse
modelo. “Na verdade, tivemos a ideia inicial de fazer um mutirão de oficinas
sobre projetos de lei criados popularmente”, conta Pedro Belasco, cientista
social e hacker do grupo. Ele se refere aos projetos de lei de iniciativa popular,
que permitem que cidadãos brasileiros proponham suas ideias para a Constituição
Federal. Não é tão simples quanto parece. De acordo com a regulamentação
nacional, para que um projeto de lei vigore é preciso uma adesão mínima de 1%
da população eleitoral do país por meio de assinaturas vindas de pelo menos
0,3% dos eleitores de cinco estados distintos. “Poucas pessoas sabem que isso é
possível. Apesar da burocracia que o processo envolve, queremos explicar seu
funcionamento”, diz Pedro, levantando as sobrancelhas.
Uma das invasões em que os hackers chegaram
mais perto desse objetivo foi a de Parati (RJ), em maio deste ano. Nela, o
público decidiu elaborar um projeto de lei pela universalização da banda larga.
Aliás, para os ativistas do Ônibus Hacker, a conclusão pertence sempre ao
público. Quem está em busca de respostas diretas deve sair da rota do busão.
Lá, eles seguem a lógica do ensino através do questionamento. “Não tenho
dúvidas de que o ônibus é um ambiente de educação informal”, afirma Lívia, entre
uma baforada e outra do cigarro. “Ele é um gerador de incertezas. O que muda
para quem participa das oficinas é a apropriação crítica da tecnologia”,
completa.
Apesar das certezas sobre a lógica educativa do ônibus, ele
ainda é incerto em alguns aspectos, como tempo de estadia no local escolhido.
Um dia é pouco, três é demais. “Se ficamos muito tempo, as pessoas acabam se
acostumando com nossa presença”, afirma Lívia. A forma de administração
financeira do projeto é outro ponto nebuloso. A hacker esbarra na definição de
um funcionamento através da “bagunça total hippie e absoluta”. Mas não é só de
paz e amor que vive o busão. Só o estacionamento custa R$ 300 mensais. 
Na
primeira troca de peças, eles dizem que foram gastos R$ 10 mil. Pedro Belasco
conta que, depois de ficar no vermelho, o grupo pensou em alternativas para se
manter. “Queremos usar parte do tempo livre para vender serviços com o ônibus”,
diz.
Com ou sem verbas, eles já se preparam para
a próxima invasão. Nos dias 20 e 21 de setembro, o Ônibus Hacker estará no
Centro Cultural São Paulo realizando uma feira de compartilhamento de torrents
(servidores que permitem que arquivos de mídias sejam compartilhados com mais
agilidade), oficinas e mapeamento cartográfico da região. Até o fim do ano, o busão
cogita expandir fronteiras. Lívia e Pedro contam que há planos de workshops no
Paraguai. Serão mais alguns quilômetros para os 18 mil rodados desde a compra
do ônibus.
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